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sábado, 21 de maio de 2011

Da desistência

Colocar os olhos na janela e contar luz por luz, um mar de luz, rios desconexos de luzes sempre é como um imã. Coloco os olhos nas luzes, no vazio e prevejo a queda. Ainda que ela nunca aconteça. A sensação de morte imediata nasceu com a minha espera. Sou mais um bobo sentado na cadeira da espera pelo que tenho saudade de jamais ter tocado. Sou mais uma espera.

Paro na fila antes de pegar o transporte coletivo e sou cercada de rostos que encontraram. Eles gritam com os olhos, com as mãos: “Que você continue na espera. Assim é que é”.

Eu sempre pedi sonhos em segredo porque eu sabia que a realidade entendia palavras ditas baixinhas. De uma sala a outra, eu fui transferida, sempre na promessa cega de que sonhos em segredo era exatamente a linguagem de deus.

Deus ouviu calado. Mas os homens não entendem a linguagem de deus e julgaram que eu não tinha sonhos.
Vesti-me com as roupas da luta e empunhei a arma que me coube. Fiz questão de dizer ao mundo que era serva da realidade, que de sonho eu era imune, graças a deus.

E vivi os dias assim: empunhei armas de todos os tamanhos e cores, fiz questão de percorrer meus iguais, meus tetos, convencendo-os de que eu era imune. E quem viesse comigo, viveria uma existência imune.

E sou uma fraude. Sempre fui uma fraude mal feita, pele e roupas e sonhos em segredo.

Clarice contou pra mim quando passei semanas G.H. e sua paixão: “Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade”. E assim eu me assumo.
De tanto treinar, os sonhos secretos surgem sozinhos. Engasgo com alguns deles. Já pensei que morreria afogada de (em) segredos.

O antídoto está na realização do sonho, mas meu palpite é que deus faz gente para ocupar cadeiras. E não me julgue pela conformidade. A desistência pode ser um prêmio. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Me procuro padrões

Não me julgue, mas hoje vou gritar a má sorte. Gente que não encontra o seu lugar é bem assim: entre toda piada do mundo e um mar de angústia em que sorrisos nem podem virar pó, porque nem podem existir.
Eu cansei de rever dias, os fatos, os beijos, a falta, o término. Cansei de encontrar padrões. Porque para estar tudo como está, só pode existir um maldito padrão que come minha raiz enquanto me dá vitaminas.
Uma planta doente. Se a raiz é podre, não existe um santo que se enterre nela. Não tem o que tirar e água não basta. Não tem um santo que, se soubesse de como a raiz está podre, correria pra outro vaso, outro corpo, outro mundo.
Eu não sei amar. E não tem um maldito dia que eu não revire os fatos, os beijos, a falta, o término em busca de uma maldita resposta. Eu não sei amar e, como coração pensante, quero saber o porquê.
Estou assustada com a ideia simples, com a ideia totalmente palpável de que as coisas são como são. Aquela sua boca enorme repetiu isso pra mim uma tarde em que deitávamos no chão, quietos, porque não tínhamos mais o que dizer.
Tenho uma maldita mania de tentar encontrar padrões. Porque se existirem padrões, eu posso me convencer de que a culpa é minha, culpa de sentimentos defeituosos.
O dia em que eu parar de tentar encontrar meu padrão, tenha certeza que eu finalmente entendi que as coisas são como são. E então eu não vou mais existir. 

domingo, 13 de março de 2011

um olho ali, outro lá

Dizem que há duas direções para tudo. Eu desconfio que existem outras, mas é mais simples mesmo reduzir nossos problemas a duas metades. Bom e ruim, bondade e maldade, radicalismo e tradição.

Viverá em paz quem aprisiona uma das metades enquanto permite que a outra tome conta da festa?

Nunca fui de maniqueísmos. Me apavora visões limitadas, rótulos, o duro e o seco. Costumo dizer que não tenho profissão, não tenho sexo, não tenho moral, não tenho paladar. Tudo é adaptável, vou tirando o que me dá prazer e descartando o lixo. Claro que o que pra mim é lixo pra você... Fiz de novo. Vivo à base de relatividade.
Não existe raiva, beleza... sequer existe uma cor. A cor que eu enxergo como rosa, para você, pode ser vermelho. Os limites são outros...

Mas desviei de onde quero chegar.
O que angustia é querer liberdade e, ao mesmo tempo, desejar profundamente raízes. É querer beber e, ao mesmo tempo, desejar nunca mais sentir uma só gota. E querer estar junto enquanto se é solitária. É pegar o melhor de cada estado. É querer demais.
Quero ser branca e negra. Uma burguesa hippie. Um pé no salto e outro descalço.
Quero o mundo debaixo dos meus braços.

Há um tempo, minha terapeuta me fez acreditar que eu não preciso ser uma só. Que eu posso ser duas, três, dez.
Mal sabia ela que sou feita de exageros.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

how much you care?

Falar de solidão soa tão clichê que me dá náuseas.
Náuseas por encarar a tela branca de um computador como a melhor companhia.
Náuseas por estar aqui, sozinha de novo, comprovando minha deficiência.
Existe tanto sentimento que meu corpo incha e eu sinto enjôo. Enjôo de sentimento.
Minhas mãos tremem e eu só grito para a tela branca do computador. Enquanto toda emoção que me incha, encontra maneiras de explodir para fora do corpo.
Não costumo chorar, mas hoje foi a maneira que ele encontrou de existir.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Não há o que eu precise

Resta tão pouco a acreditar. Já tive fé na mãe, no vizinho, nos meus olhos, no que cortava o céu, no pouco, no muito, em mim, no amor. E como tudo é líquido, hora ou outra: derrete.
Já pensei em apenas acreditar no passado. Mas veja só, ele também não existe. Futuro? Não existe. E o presente, cúmulo do efêmero, não se dá ao respeito. Não merece nossa fé, nossa crença, nossa atenção.
Já acreditei na união, nas drogas, nos livros. Acredite: pinga gotas, hora ou outra: derrete.
A crença em qualquer crença está morta. Política, arte, motim, família, estrada. Quando digo que pouco em que acreditar me resta, acredite. Você ainda pode acreditar em mim. Mas, a mim, resta pouco.
Eu seria capaz de revirar lixos em busca de crenças, se acreditasse na felicidade de crer novamente. Felizes os que crêem. Mas também não acredito nisso. Crer já é por si só uma mentira, um estupro mental.
Eis o paradoxo: só há vida onde há mentira e, se é mentira, logo eu não creio. Então, sem fé, ninguém é capaz de viver?
Sobrevivo com o benefício da dúvida. Benefício que me foi concedido por solidariedade à minha incapacidade de crer. Assistencialismo puro.
Não digo que levo uma vida digna, mas não há do que reclamar.
Recebo minhas cotas de questionamento e me alimento com o que sobra dali.
Não há cura para descrença crônica.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Rotina de guarda-roupa



Já fiz isso antes. Mas é incrível como os passos pesam mais ao longo dos anos. O presente parece mais pesado agora. Antes, o desagradável martelava. Hoje, é bola de ferro nos pés. Ele te afunda na cama.
Não vivo mais a liberdade inconsequente de outrora. Mas, ai, como queria vivê-la novamente!
Aquela liberdade desesperada, aquele gesto obsceno para o passado. Saía de cabeça erguida, história na mão. O peito pulando em alegria sufocante.
Hoje visto-me com uma responsabilidade meio oca. É quase uma fantasia. Uma fantasia para uma festa que não quero estar.
Observo e o que vejo são fantasiados, máscaras e bebidas controladas. Vendidas a um alto preço.
(...)
Tirem-me desta festa, por favor. Eu quero cara limpa, open bar, guaraná na mesa.


(Vou costurar roupas novas.)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

é da repetição que nasce o trauma ou solução vazia

Algumas pessoas nasceram para amar. Outras, para serem amadas.
Na maioria das vezes, a equação é simples assim.

A ideia não é nova, mas perfeitamente aplicável.
Depois de anos observando, ouvindo histórias e fazendo brotar conselhos de uma terra pouco lavrada, mas encorpada, eu, simplesmente, entendi.
É observação.
Dia após dia, as pessoas repetem comportamentos. Os parceiros mudam, as situações são outras, o tempo outro. Mas os comportamentos permanecem.

Um nasceu para amar. Busca constantemente o parceiro. Cede. Compreende. Ama. Entrega-se. Distribui elogios, agrada. Entre términos e começos, até perde a esperança. Mas a reencontra na esquina mais próxima. Perdoa.
Outro é amado. Durante um tempo, permite ser amado. Cede. Entende. Gosta. Entrega seu tempo. Elogia. E critica. Entre términos e começos, perde a esperança, mas só até o próximo elogio, que recebe na esquina mais próxima. Os parceiros aparecem, as conquistas são construídas. Mas, depois de um tempo, ele apenas solta o freio e permite o amor de fora para dentro. Raramente, de dentro para fora.

Algumas pessoas nasceram para amar. Outras, para serem amadas.
Na maioria das vezes, a equação é simples.

domingo, 15 de agosto de 2010

Everybody lies

Uma vida de expectativas e, em uma noite gelada, percebo que a resposta chega em blocos.

Mentiram pra mim.
Avisem os humanos: mentiram.

Alguns problema não têm solução. Esforço não necessariamente gera recompensa. E, não, as coisas simplesmente podem não terminar bem.

E a vida, a vida segue seu curso. Com ou sem meus sonhos.


[expectativas por esperar sempre mais o menos brota lágrimas em mim as lágrimas adubam a expectativa por mais e o ciclo continua e não finda quando findará o menos não me basta eu quero continuar ansiando o mais mas o mais é ocupado demais o mais sempre está ocupado demais e eu penso cedo ou tarde mas não o mais está sempre ocupado demais]

sábado, 31 de julho de 2010

Enquanto ideia



O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

E ai de quem disse que o amor engole, calado, o que está aí.
Ai de quem bradou que forte é o amor que suporta calado.
Ai de quem bateu de porta em porta dizendo que o amor é pedra, que o amor é sólido.
E ai de quem duvida que o amor é desenhado. Com ou sem chuva, um dia, os traços compuseram o desenho. Ai de quem duvida.

Mas amor é ideal. Amor é ideia e não desce morro. O amor existe porque existe a ideia. Porque é desenhado. A ideia do amor existe enquanto existir ideia. E mente quem não ama a ideia do amor.
Quem de nós ama além?

domingo, 18 de julho de 2010

Regina Spektor: Samson



Mil pássaros de papel e, quem diria, conseguimos rasgar o último.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Um jogo e um alívio

De frente para um sofá vermelho. Uma luz à esquerda.
- Ideal. Eu desejo um ideal? Uma fuga, até mesmo dentro de padrões óbvios, a liberdade, o riso fácil.

Um suspiro e a voz alta.
- Que porra de ideal é essa?

Um copo de água mais tarde.
- É ideal? Eu desejo um ideal? Um sentido para aqueles momentos de sanidade. Aqueles poucos que, durante o dia, perturbam o silêncio de uma série de pensamentos lineares. Aqueles que entram por um lado, saem pelo outro e. Nada. Um sentido para os momentos. Mesmo para os quase sem sentido. Não é ideal.

Não é.
- Eu desejo um ideal? É só sentido. Caminho. Um mesmo sentido. Um reflexo conhecido nos olhos a frente. Um abrigo. Passos que se acompanham. Não é ideal. Trata-se, apenas, de um sentido. É meu ideal, entende? Não é perfeição. É riso fácil. Fácil. É sentir-se parte de algo. Entende? Não é ideal. Puta que pariu.

Outro copo de água.
- Para onde caminhamos? Não é ideal. É um sentido. Na concessão há limite? Eu acho que há. Não entende? Não entende que há limite? Há um limite. Porra.

(...)
Ideal. O que eu ainda posso retirar? É real? É justo? Há justiça nos sentimentos?
Nunca há justiça no riso fácil.

sábado, 12 de junho de 2010

Mais uma maçaneta

Arranhões podem transformar o tempo.
Se já é frio, pequenos arranhões, palavras arrastadas tornam as horas mais frias.
Olhar através do vidro já é, por si só, solitário. Depois daqueles arranhões, é cortante.
Pedimos sinceridade fria. Pedimos aquela extrema sinceridade. O frio sempre dá o que desejamos com aflição.
O frio não nos uniu sob o entrelaçado, atitude tão comum. O frio, o frio que tanto pedimos, nos afastou.
O frio, esse frio, afastou o hoje, o dia que eu tanto recriei.
Temo não encontrar mais um.

Se a intenção era deixar minhas mãos mais frias, seus arranhões conseguiram.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Entre pássaros e peixes



Pincelada sobre pincelada, daquelas cores de aquarela, sobra pouco o que discernir.

É um fio, uma ponte, que une o que queremos, o que supomos querer e o que, de fato, é.

É como é, simples assim.

Pincelada sobre pincelada, tentamos sobrepor sentimentos, impulsos de sentimentos e a tinta, tão suave, continua mostrando o que havia por baixo.

A tinta, caros amigos, é suave. Já deviam ter avisado. E eu, inocente que sou, já devia ter entendido.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A liberdade de compartilhar

Há semanas cultivo a descrença. Descrença no ser humano, na sociedade, no futuro. Descrença no amor. Descrença em tudo o que envolve uma pessoa e o contato com outra. E o contato com a pele. O verdadeiro contato.
Peço licença à toda esta rede pessimista que toma meus pensamentos e a quem passeia por aqui para publicar um texto que tirou um suspiro meu há muito guardado.


Pessoa Predileta
Fabrício Carpinejar*

Sou barman da memória.


Misturo as bebidas, as lembranças e giro de um lado para outro tentando entender. Dependendo do que vejo, sou capaz de dançar.

Minha primeira vez com a Cínthya, não recordo o que tomei, nunca consegui repetir. Permaneço com ela somente para descobrir a receita. É mentira, já estou brincando porque estou emocionado. Costumo fazer isso: brincar quando estou nervoso, brincar quando estou desesperado, brincar quando estou angustiado, o que me torna um homem aparentemente bem-humorado. Se não fosse minha cultura, dançaria sertanejo. E sertanejo universitário, para mostrar com que copo derramado você vem conversando.

Não desejava amar de novo. Acabava de me separar. Experimentava um pavor corajoso, o mesmo que sentia de pequeno, quando tinha que atravessar o pátio escuro correndo, correndo acelerado, para buscar a bola abandonada na grama.

Fui trocar prosa fiada com um grande amigo no bar. Mandei um torpedo antes para Cínthya, de quem somente conhecia a voz ao telefone, avisando que estaria no Apolinário. Ela desenhou camisas com minhas crônicas. Um trabalho artesanal para oferecer de presente aos amigos.

Ela veio em quinze minutos, meu amigo não acompanhou o relâmpago. Imaginei que conversaria com uma fã, alguém que gostava do meu estilo, que inflamaria a vaidade. Mas não. A gente começou a discutir a ponto de fazer uma queda de olhos mais do que de braço.

O amigo se isolou, assistia ao entrave como a uma partida de tênis, cuidando os arremessos na marca. Logo desistiu e pagou sua parte na conta.

Não que ela fosse truculenta. Pelo contrário, educada e delicada, tomada de uma fragilidade de quem prende a respiração e tira vidro da pele. Havia uma leveza em seus cabelos, um vento próprio, a impressão é que andava com um pajem em suas costas. Vá que seu anjo seja um pajem.

Luminosa, aérea, linda em seu despojamento, percebia nela uma pobreza de paraíso. Ela era toda essencial, não se conseguia roubar coisa alguma de seu temperamento. Não usava nenhum vestido, não apareceu produzida, estava de jeans e uma camisa básica, sem pintura. Como se fosse descer para pegar uma carta em seu edifício. Não me concedeu importâncias de visita.

Aquele primeiro encontro é incompreensível mesmo. Não criamos nenhuma cumplicidade imediata, nenhuma sintonia evidente; cortejamos o deboche. Os garçons não diriam que ficaríamos juntos, apostavam 3 por 1 que não sairíamos no mesmo carro. Nem nós. O destino escreve rápido e esconde a folha. Mudo a cena, viro de cabeça para baixo e não capturo o que nos aproximou. Por quê?

Talvez o riso dela, que aumentava a altura do teto. Talvez a boca límpida, que não sobrava em nenhuma palavra. Ou sua capacidade de se devotar a cada frase com “o quê?” como se não houvesse escutado para ganhar tempo do revide.

Ela foi lavar as mãos e me aproximei e passei a lavar seus braços, seu rosto, a ensaboá-la, nem pensando em como receberia meu gesto, se me afastaria com violência ou aceitaria mansamente a minha loucura. Naquela hora, eu queria dar banho nela. Naquela hora, esqueci o lugar. Esqueci que estava cheio. E beijá-la era beijar sua pálpebra por dentro.

Somos tão diferentes e tão apaixonados. Ela tem disciplina, eu tenho obsessões. Eu guardo minhas culpas no desejo e distribuo desculpas. Ela odeia culpa e não perdoa. Sou alucinado por casamento, ela jura que é cativeiro. Cansamos com frequência, não aceitamos fácil um ponto de vista, não falamos amém para uma teoria ou uma descoberta, o que é estranho para mim depois de imprevisíveis metáforas. Convivemos com réplica, tréplica, uma curiosidade infinita pelo avesso. Não convivemos com o suspiro, porém com o soluço. O soluço é o nosso suspiro. O soluço é o suspiro da discussão.

Ela tem um medo assombroso de mim, do quanto posso feri-la. Eu tenho um medo danado dela, porque é bem capaz de viver sem mim. A linda cretina nunca disse que não vive sem mim, acredita? Nunca, nem dormindo…

O amor dela é tranquilo, imutável, o meu é para agora, renovável. Ai se ela não demonstra apego numa tarde, mergulho em surto. Ela não depende de jura e declarações, está bem assim, cercada de um silêncio atento, sabendo que a amo. Quando preciso dela, ela supõe que é drama e mais uma artimanha para ser o centro dos acontecimentos. Quando ela precisa de mim, eu deduzo que ela procura se afastar e perdeu o interesse. Já brigamos no carro, no elevador, no shopping, acordamos vizinhos, assustamos os donos e seus cães na rua e insistimos e nos perdoamos porque somos tão apaixonados.

Existem enigmas guardados na pequena mesa de um bar da Cidade Baixa. O enigma é o futuro do segredo. Muito mais do que poderia beber naquela noite. Muito mais do que poderia conservar numa vida. Muito mais do que possuo condições de antecipar pela minha ansiedade.

A esperança pode vencer a experiência. A esperança é uma experiência.

* http://carpinejar.blogspot.com/

sexta-feira, 19 de março de 2010

O coelho

Nada importa. Nada mais importa. Nada mais importa pra mim.

O amanhã nunca será o amanhã. O amanhã é o simulacro de um simples e medíocre hoje. Um simulacro!

Respirei e pouco importa. Pensamento que pesa. A Lei da Gravidade é a mesma para todos?
Amigos físicos que me perdoem, mas, hoje, quase sinto a certeza de que a força que me empurra para o centro do globo é maior. Ontem, hoje e, me parece, amanhã assim será. Mesmo porque o amanhã não existe e jamais existirá. Não passa de um simulacro de um medíocre hoje. Um simulacro, vejam bem!

E nada mais importa.

A cada hora, perco-me dentro de mim mesma. Assusta-me a sensação de que, quanto mais penetro na toca, menos lembro quem eu sou. E perder-se parece inevitável.
Perder-se parece inevitável e sem volta.

Da toca sem fim, mando um e-mail, se alguém assim quiser.
Prometo que escrevo. Sobrando-me algum juízo, prometo que escrevo. Se alguém assim quiser. Prometo. Se algum juízo me restar.

Do fundo de uma toca que, a cada ideia, parece-me mais profunda.

domingo, 14 de março de 2010

Há um fim (?)

Onde acaba tanta procura? Hoje ouvi que só o que queremos é alguém como nós. Mas se nos sentimos tão à parte do mundo, como achá-lo? Há alguém à parte de tudo como você?

O mundo não reconhece sua genialidade. Mas você não cansa de acreditar que algo o torna tão à parte. Algo o difere, difere pensamentos comuns, os olhos são outros.

Há alguém como você? Ou é só mais uma mentira, mais uma mentira criada, forjada para que não perca a vontade de permanecer?

No fim, as coisas realmente dão certo? Noite após noite duvido disso. É reconfortante dizer que tudo ficará bem. Não, tudo pode não ficar bem. Sua vida pode passar, simplesmente passar e, um dia, desaparecer.

Não há um sentido.

O sentido está em Deus? O sentido está no amor? Sentido é chão.

Seguir os dias sem sentido é inconcebível, é como um não existir.

Hoje não escrevo entrelinhas. Hoje escrevo o que sai de dentro, sem escolher palavras, o que a noite traz.

Apenas seguir rumo ao próximo dia não está nos meus planos. Isso, sim, é um não existir. Onde está quem reconhece minha profundidade? Deus, o homem?

Pensar assim é ser por si só solitário. Assusta-me pensar que, talvez, este seja o sentido. E nada mais. Ser solitário por se ser o que se é.

Serei solitária, perdida em minha profundidade até o fim. E é pra isso que fui feita. Maldição ou não, quase acredito que minha eternidade é simples assim.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Eu crio romances inexistentes.

Diante de um universo de possibilidades, múltiplas probabilidades assombram as expectativas dia a dia. Respiro e vejo-me imaginando algo que ainda não sei para, segundos mais tarde, constatar que era algo para se imaginar. Algo que jamais saiu do plano imaginativo e, sim, apenas caminhou alguns passos em direção a ele. Em uma cabeça um tanto oca, como a minha. Só e tão somente.

Não tenho tempo de sobra, mas insisto em criar tais probabilidades que não são. Que venham todas para mim. E, segundos depois, que inocência tardia é essa?

Jogo em quatro cantos a lenda do amor perdido. Daquele que nunca saiu das páginas ou da tela sobre tela do cinema empoeirado. Grito, aponto a ponta do dedo e nada mais. E, segundos mais tarde, pasmem, estou eu criando expectativas! Convenhamos, amigos. É ou não é ato este digno de análise psiquiátrica?

Ouvi dizer, dia qualquer destes últimos, que coisa de 90% dos casos psicológicos/psiquiátricos/psicocriados são, pausa-suspense, problemas de relacionamento. Em que momento desaprendemos a olhar para o lado-dar as mãos-simular beijos eternos-levar ao altar? Casos e tantas fotos comportamentais alheias depois, procuro saber o que torna tudo tão simples para uns e tão complicado para outros – justamente os que param em cadeiras desconfortáveis e liberam meio-salários para quem os ouve semanalmente. Culpa dos pais? Culpa da sociedade e sua fábrica de modelos? Incompetência crônica?
Quem vai segurar meus traumas dessa vez?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

'Delírios de uma noite solitária' ou 'Três fases'

Da matéria angustiante, nossos corpos, frios e vãos, compõem-se.
E da vida angustiante, os dias seguem-se, andam rapidamente.
Em abrir e fechar os olhos incessante, a história é composta.
O cotidiano forma-se e transforma-se, toma forma, é num abrir e fechar de olhos incessante, incessantes.
Pouco nos inspira. O encanto chega em migalhas amassadas, cuspidas pela realidade. Ela, que gela, que destrói pouco, o pouco que nos resta agarrar.
Gélida solidão! Gélida angústia que corrói.
A vida é uma grande ilusão e, sinceramente, tem sempre razão?

***

O que realmente resta?
Do pouco que a vida é feita,
Resta achar que, em matéria de amor,
Não fui feita para senti-lo.
Resta a fidelidade do amor,
Do amor teórico, idealizado.
Resta-me tempo de sobra,
Tempo para sofrê-lo, entregar-me.
Das madrugadas de que a vida é feita,
Restam lembranças que já foram.
Das tristezas,
Resta lembrar de suspiros iludidos.
Porque o que é a vida senão ilusão?

***

Paixão se explica?
Podemos nomeá-la?
Podemos fabricar um pouco da matéria do que é feita a paixão?
Ela independe de nossa vontade. É incontrolável. Por isso, feita de material tão raro.

***

Um obrigada ao personagem noturno de hoje que, em seu universo, cantava abertamente, em voz alta "Pra não dizer que eu não falei das flores". Ali, reencontrei esperança.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O gosto amargo dos tempos de desprazeres. Chegam assim, devagar. Instalam-se como pragas, grudadas às folhas jovens. Chegam e, com elas, trazem espasmos de angústia, breves segundos de falta de ar. É amargo e, com os primeiros ocorridos, crescem os seguintes. Um sobreposto ao outro. Numa fila indiana contínua, sem fim. Hora perde-se o começo também. Já não sabemos o que desencadeou, já não há qualquer perspectiva de término. Esses tempos de desprazeres não brincam. E o nosso desprazer parece aumentar a fluidez alheia. Por quê? Às vezes, tenho respostas, só não as quero achar. Mas, nesse caso, não. Pergunto-me constantemente, com sinceridade, o porquê dos tempos de desprazeres da vida. Eles realmente têm um fim? Ou apenas despedem-se com uma boa notícia para, em outro momento inoportuno, ressurgirem por entre as frestas da janela, por debaixo do tapete de entrada?

Ah, devo aceitá-los como parte de uma vida que, hoje, se insinua tão pouco. Devo?

Onde estão as recompensas, o justo aos justos? As horas parecem desinteressantes. Abrir e fechar os olhos fazem parte de um maquinário, cujo objetivo é esperar. Apenas esperamos. Esperamos que os tempos de desprazeres acabem. Esperamos um emprego, uma ocupação, uma reforma. Esperamos perder quilos, ver os músculos crescerem, ver os cabelos alongarem. Esperamos um próximo amor. Esperamos um próximo encontro, uma próxima reunião com os amigos. Esperamos o próximo Natal, o próximo ano. Esperamos com uma esperança tão tola!

Ah, é tão tolo esperar. Como é tolo esperar. E é só isso que fazemos. Esperar. Esperamos atitudes, reconhecimento, aprovação. Esperamos porque, no fundo, acreditamos que merecemos. Acreditamos que somos diferentes, especiais. E que, por isso, merecemos.

Mas somos tão comuns que dói pensar. No fundo, comuns. Não há o que esperar.

Compreender não nos faz diferente. Posso compreender, mas, no fundo, existe a esperança tola, enraizada. Grudada, colada.

E essa tola esperança me faz crer que o tempo de desprazeres, um dia, vai sair pelas frestas da janela. Assim como chegou.

Até lá... ah, até lá, não sei. Vou deixar a janela aberta, por via das dúvidas. Tola...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


De sonhos perdidos,
minha caixa, guardada sob o móvel,
está cheia.

Em qual fissura se esconderam?

Desapareceram sob farpas. Soterrados pelos dias, pelas noites ou pelo ardente desejo de se ser quem NÃO se é?

Frustrar-se é cair na real de que o tempo passou.
Destino, karma ou a gélida impressão de que, apenas, fiz escolhas erradas?

Em que momento o excesso de esperança passou a excesso de ilusão e tão-somente-ilusão?
A distração pode custar caro.

Boa noite.