Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias
Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.
Dei para sonhar agora. Sem motivo aparente. Aparentemente (você).
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Clarice entrevista Vinícius
Como somente Paulo Coelho e Jorge Amado estão no hall de escritores brasileiros que conseguiram sobreviver apenas com vendas de livros, não é de se estranhar vê-los fazendo outros trabalhos, muitos na área do jornalismo. Existe um livro de entrevistas feitas por Clarice Lispector a grandes personalidades da arte. Abaixo, você lê a entrevista que ela fez a Vinícius de Moraes.MULHER, POESIA, MÚSICA
- Vinícius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinícius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres com quem você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
- Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo.
- Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
- É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.
- Você já amou desse modo?
- Eu só tenho amado desse modo.
- Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?
- Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto "Fidelidade": "que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure".
- Você sabe que é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
- Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não, é ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
- Às vezes fico mal-humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes dos nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.
- Qual é a artista de cinema que você amaria?
- Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só exisitisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tenho outro.
- Fale-me sobre sua música.
- Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
- Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
- Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo da solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
- O fato de querer me comunicar tanto.
- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
- Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.
- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?
- Para mim é a mulher, certamente.
- Você quer falar sobre sua música? Estou esperando.
- Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.
- Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
Fizemos uma pausa. Ele continuou:
- Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...
(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:
- É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num momento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máxima para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
- Como é que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência, você que é livre por excelência?
- Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.
- Como pessoa, Vinícius, o que é que desejaria alcançar?
- Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
- Quero lhe pedir um favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
- Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e outra embaixo porque é um verso.
É assim:
Clarice
Lispector
- Acho lindo o teu nome, Clarice.
- Você poderia me dizer quais as maiores emoções que já teve? Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
- Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte - desastre de avião e de carro - mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
- Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu.
Então telefonei para cada uma das esposas de Vinícius.
- Como é que você se sente casada com Vinícius?
Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
- Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.
Depois conversei com uma mocinha inteligente:
- A música de Vinícius, disse ela, fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela.
- Você teria um 'caso' com ele?
- Não, porque apesar de achar Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E "de repente, não mais que de repente", ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Morais.
- Você poderia me dizer quais as maiores emoções que já teve? Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
- Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte - desastre de avião e de carro - mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
- Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu.
Então telefonei para cada uma das esposas de Vinícius.
- Como é que você se sente casada com Vinícius?
Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
- Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.
Depois conversei com uma mocinha inteligente:
- A música de Vinícius, disse ela, fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela.
- Você teria um 'caso' com ele?
- Não, porque apesar de achar Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E "de repente, não mais que de repente", ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Morais.
É, dá vontade de viver para amar. Só amar.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Chapter 4
A cabeça pesa. A mente pesa. O corpo pesa. À parte do mundo, ela sentia-se um pouco mais afastada. Uma exclusão quase que natural. Os olhos passavam pelas cenas à sua frente, retratos seqüenciais, conseqüência de um comportamento avesso aos ditados padrões. Há meses ela tentava adequar-se. Fazer parte de algo que teimava em deixá-la para fora. Teimava em levá-la para mais longe da realidade presente, cenas de uma rotina construída à força. Será isso inteligência? Forçar-se, uma masturbação mental sem precedentes. Isso a confundia, mas ampliava seu entendimento e, por mais que fosse dolorido, a deixava como observadora de situações para nenhum antropólogo achar defeito. Ela percebia-se diferente, analisava seus próprios comportamentos, ditava novas regras para suas relações, obtinha novas saudades. Adquiria novos gostos. Tudo a um preço caro: as horas sempre pareciam compridas demais. Mas, centos de dias depois, ela percebia, orgulhosa, seu avanço. Novas idéias, ideais, ideologicamente construídos para não admitirem condenações. Tudo montado com cuidado, milimetricamente pensado. Ela sabia que sofreria ainda mais, que o sofrimento nascia do sem-fim ato de tentar adequar-se. Adequar-se a cada realidade, uniões de fracos que, para evitar o redemoinho social, amontoam-se uns sobre os outros e expelem aquele que não colabora para uma unidade acéfala.
O que exatamente causa a sensação de distanciamento? Os outros ou o íntimo, que insiste em focar os olhos para baixo, alheio ao que acontecesse ao redor? Ela continuava com as teclas do computador sob os dedos e tudo parecia distante demais. Criou um universo paralelo e lá ficava, segundos confortáveis. Extremamente confortáveis. Lá, as dúvidas não a levavam frente à parede, mas ajudavam-na a criar. Desconexões logo pareciam claras demais. Os pensamentos na tela encaixavam-se e transformavam delírios em contos primários. Hoje ela sentia falta de cores.
(Meu humor é de oscilar. Quem me conhece, sabe. A angústia dá o ímpeto, mas 'cada um sabe das dores e delícias de ser quem se é')
A cabeça pesa. A mente pesa. O corpo pesa. À parte do mundo, ela sentia-se um pouco mais afastada. Uma exclusão quase que natural. Os olhos passavam pelas cenas à sua frente, retratos seqüenciais, conseqüência de um comportamento avesso aos ditados padrões. Há meses ela tentava adequar-se. Fazer parte de algo que teimava em deixá-la para fora. Teimava em levá-la para mais longe da realidade presente, cenas de uma rotina construída à força. Será isso inteligência? Forçar-se, uma masturbação mental sem precedentes. Isso a confundia, mas ampliava seu entendimento e, por mais que fosse dolorido, a deixava como observadora de situações para nenhum antropólogo achar defeito. Ela percebia-se diferente, analisava seus próprios comportamentos, ditava novas regras para suas relações, obtinha novas saudades. Adquiria novos gostos. Tudo a um preço caro: as horas sempre pareciam compridas demais. Mas, centos de dias depois, ela percebia, orgulhosa, seu avanço. Novas idéias, ideais, ideologicamente construídos para não admitirem condenações. Tudo montado com cuidado, milimetricamente pensado. Ela sabia que sofreria ainda mais, que o sofrimento nascia do sem-fim ato de tentar adequar-se. Adequar-se a cada realidade, uniões de fracos que, para evitar o redemoinho social, amontoam-se uns sobre os outros e expelem aquele que não colabora para uma unidade acéfala.
O que exatamente causa a sensação de distanciamento? Os outros ou o íntimo, que insiste em focar os olhos para baixo, alheio ao que acontecesse ao redor? Ela continuava com as teclas do computador sob os dedos e tudo parecia distante demais. Criou um universo paralelo e lá ficava, segundos confortáveis. Extremamente confortáveis. Lá, as dúvidas não a levavam frente à parede, mas ajudavam-na a criar. Desconexões logo pareciam claras demais. Os pensamentos na tela encaixavam-se e transformavam delírios em contos primários. Hoje ela sentia falta de cores.
(Meu humor é de oscilar. Quem me conhece, sabe. A angústia dá o ímpeto, mas 'cada um sabe das dores e delícias de ser quem se é')
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Nós
Chapter 1
De um nó, surge outro nó.
Um emaranhado sem fim entrelaça os dias, momento a momento.
Pensamentos desconexos, sem contexto, soltos, mas longe, de leve, voam perto ao teto da sala de estar.
Ela, que já sentiu-se mínima e que já visitara o universo, agora sentia-se uma perfeita interrogação. Os minutos sozinhos pareciam ter sentido, mas unidos embaçavam-lhes os olhos verdes, apertados pelo sol da tarde.
O peito seguia cheio, cheio de algo que oprimia sua respiração. O ar quente enchia os pulmões vagarosamente, em pouca quantidade e custava a sair.
Os dedos do pé amontoavam uns sobre os outros e de suas pernas escorriam pequenas gotas de suor.
À sua janela, um grupo de pessoas conversava sobre coisas quaisquer. E ela continuava com os fones enterrados nos ouvidos. As vozes apareciam entre uma canção e outra e, a ela, não importava o assunto de que tratavam os transeuntes. Para ela, eles eram apenas mais um grupo, que gostava de parar à janela para discutir coisas quaisquer. E de tais assuntos, sua existência estava bastante pontuada.
Do dia para a noite, ela trocara festas, amizades, encontros e todo e qualquer desfrute que seu corpo podia usufruir, por dias regados a regras, deveres e silêncio.
Seus pés haviam tocado aquele chão há um mês, mas sua mente pregava que ela trocara de vida há muito mais.
Dentro das gavetas de seu antigo quarto, ela deixara planos, desejos, vaidade e um bocado de histórias. Aqui, ninguém pararia para escutá-las, histórias reais, mundanas, acontecidas em loucas noites sem muito pudor.
Aqui, ninguém satisfazia suas vontades, ninguém a cobria de elogios. Aqui, ela permanecia longe dos amigos, da família e de toda zona de conforto em que ela orbitava seus minutos.
Chapter 2
Os dias passavam vagarosamente. Nossa... quanto tempo a preencher. O que a fazia sorrir eram os acordes altos dentro do ouvido. Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Billie Holiday. A casa estava sempre cheia, ela não podia ficar sozinha nem nos mais solitários dos ambientes: o banheiro. Não. A idéia era não ficar sozinha. Ela era obrigada a estar rodeada de pessoas vinte e quatro horas por dia. Hoje era noite. O peito comprimido por angústias difíceis de descrever, os olhos fixos na tela do computador a escrever devaneios aparentemente sem sentido algum. Ah, como não estar sozinha era complicado! Sua maior vontade era cerrar as pálpebras e aparatar longe dali. Uma cama quente de um típico apartamento paulistano, um banco de praça solitário, a mesa de um bar vazio. Nada transformava aquela idéia. Ela não sentiria saudades, apenas um saudosismo besta, digno de quem esconde um sentimentalismo exacerbado. E secreto.
Aqui, agora, ela sentia-se sozinha. Sozinha por dentro e rodeada por fora. Seu desejo era oposto. Para ela, a perfeição da vida estava em sentir-se protegida, aconchegada e acompanhada por dentro, mas sozinha por fora. Seus olhos logo moviam-se para o teto e a nuvem de imaginação visualizava a situação perfeita. Uma varanda, as luzes da cidade, a vitrola saudando o passado, o lápis na mão e o coração carregado de sentimentos. A plenitude interna, pronta para ser expelida para o papel. O vapor do café sobre a mesa de madeira. A luz morna do abajur de canto. O sorriso de canto de boca. A situação ideal. Ah... a noite ideal.
Mas não. Cá estava ela. Vazia por dentro, ninguém povoava seu coração que, dia após dia, endurecia um pouco mais. Sozinha por dentro, vazia por dentro. E rodeada por fora. Olhos inquisidores, mentes férteis imaginando atividades e pensamentos irreais. Ela não compreendia. Ou melhor, compreendia suas próprias escolhas, escolhas confusas de uma mente pouco lógica. Sentimentos e pensamentos dicotômicos acompanhavam-na há anos. Anos que passou a tentar compreendê-los. Anos a fio... todos desperdiçados nesta louca tentativa de desvendar seus próprios devaneios.
Chapter 3
A angústia não a deixava. Poderia listar poucas coisas a fazer: estudar, completar tarefas filosóficas, limpar espaços comuns. De repente costurar roupas, organizar armários... ou até dormir, comer, tomar um banho. Mas nada a agradava. Nada a fazia vibrar, nada lhe proporcionava prazeres reais, daqueles que nos fazem, ao menos por instantes, esquecer de nossa constituição corpórea finita, dolorida, insegura e que fingimos ser natural, agradável. Fingimos não sentir dor. Porque pensar, refletir sobre tal miserável condição traria loucura, extremos estados depressivos.
De dentro de seu corpo individual (porque, isso sim, ela sabia ser: individual), misturavam-se desejos particulares e sociais. Vibrava e ria de lábios fechados. A compreensão a havia atingido. Ela conhecia as coisas, a constituição da alma, mas não abandonara o corpo e a inter-relação com outros corpos, embora preferia mantê-las no plano sutil. Ela, aos poucos, compreendia sua relação com o meio. Com a dimensão a qual encontrava-se inserida.
Ela, algumas vezes, queria deixar o vento tocar sua pele, sair nua pela rua. Movimentos circulares, ela queria sair pelas ruas e que as ruas passassem por ela. E se ninguém? Ninguém a percebia. Poderiam ver e seguir suas vidas, mediocridade construída e bem querida. Desejos próprios, nascidos de mentes conscientes ao seu querer. É isso. A consciência é oferecida em bandejas de prata. Consciência saborosa, quem vai querer? Temperos exóticos, consciência temperada, quem vai querer? Pesa no estômago, mas é de graça! Quem vai querer?
Não, ninguém a quer. Ninguém deseja algo que estimulará cérebros adormecidos. Preguiça generalizada, um sono constante, zona confortável, acolchoada. Preferem assistir a tudo do lado de dentro. Atrás da janela é mais seguro, não? Pra que trazer novos pensamentos a um cérebro que nasceu cansado?
Onde mora o erro? Em mim ou neles? Pra que construir novas estrada quando as velhas já estão prontas e abarrotadas de pegadas sujas e confusas?
To be continued...
De um nó, surge outro nó.
Um emaranhado sem fim entrelaça os dias, momento a momento.
Pensamentos desconexos, sem contexto, soltos, mas longe, de leve, voam perto ao teto da sala de estar.
Ela, que já sentiu-se mínima e que já visitara o universo, agora sentia-se uma perfeita interrogação. Os minutos sozinhos pareciam ter sentido, mas unidos embaçavam-lhes os olhos verdes, apertados pelo sol da tarde.
O peito seguia cheio, cheio de algo que oprimia sua respiração. O ar quente enchia os pulmões vagarosamente, em pouca quantidade e custava a sair.
Os dedos do pé amontoavam uns sobre os outros e de suas pernas escorriam pequenas gotas de suor.
À sua janela, um grupo de pessoas conversava sobre coisas quaisquer. E ela continuava com os fones enterrados nos ouvidos. As vozes apareciam entre uma canção e outra e, a ela, não importava o assunto de que tratavam os transeuntes. Para ela, eles eram apenas mais um grupo, que gostava de parar à janela para discutir coisas quaisquer. E de tais assuntos, sua existência estava bastante pontuada.
Do dia para a noite, ela trocara festas, amizades, encontros e todo e qualquer desfrute que seu corpo podia usufruir, por dias regados a regras, deveres e silêncio.
Seus pés haviam tocado aquele chão há um mês, mas sua mente pregava que ela trocara de vida há muito mais.
Dentro das gavetas de seu antigo quarto, ela deixara planos, desejos, vaidade e um bocado de histórias. Aqui, ninguém pararia para escutá-las, histórias reais, mundanas, acontecidas em loucas noites sem muito pudor.
Aqui, ninguém satisfazia suas vontades, ninguém a cobria de elogios. Aqui, ela permanecia longe dos amigos, da família e de toda zona de conforto em que ela orbitava seus minutos.
Chapter 2
Os dias passavam vagarosamente. Nossa... quanto tempo a preencher. O que a fazia sorrir eram os acordes altos dentro do ouvido. Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Billie Holiday. A casa estava sempre cheia, ela não podia ficar sozinha nem nos mais solitários dos ambientes: o banheiro. Não. A idéia era não ficar sozinha. Ela era obrigada a estar rodeada de pessoas vinte e quatro horas por dia. Hoje era noite. O peito comprimido por angústias difíceis de descrever, os olhos fixos na tela do computador a escrever devaneios aparentemente sem sentido algum. Ah, como não estar sozinha era complicado! Sua maior vontade era cerrar as pálpebras e aparatar longe dali. Uma cama quente de um típico apartamento paulistano, um banco de praça solitário, a mesa de um bar vazio. Nada transformava aquela idéia. Ela não sentiria saudades, apenas um saudosismo besta, digno de quem esconde um sentimentalismo exacerbado. E secreto.
Aqui, agora, ela sentia-se sozinha. Sozinha por dentro e rodeada por fora. Seu desejo era oposto. Para ela, a perfeição da vida estava em sentir-se protegida, aconchegada e acompanhada por dentro, mas sozinha por fora. Seus olhos logo moviam-se para o teto e a nuvem de imaginação visualizava a situação perfeita. Uma varanda, as luzes da cidade, a vitrola saudando o passado, o lápis na mão e o coração carregado de sentimentos. A plenitude interna, pronta para ser expelida para o papel. O vapor do café sobre a mesa de madeira. A luz morna do abajur de canto. O sorriso de canto de boca. A situação ideal. Ah... a noite ideal.
Mas não. Cá estava ela. Vazia por dentro, ninguém povoava seu coração que, dia após dia, endurecia um pouco mais. Sozinha por dentro, vazia por dentro. E rodeada por fora. Olhos inquisidores, mentes férteis imaginando atividades e pensamentos irreais. Ela não compreendia. Ou melhor, compreendia suas próprias escolhas, escolhas confusas de uma mente pouco lógica. Sentimentos e pensamentos dicotômicos acompanhavam-na há anos. Anos que passou a tentar compreendê-los. Anos a fio... todos desperdiçados nesta louca tentativa de desvendar seus próprios devaneios.
Chapter 3
A angústia não a deixava. Poderia listar poucas coisas a fazer: estudar, completar tarefas filosóficas, limpar espaços comuns. De repente costurar roupas, organizar armários... ou até dormir, comer, tomar um banho. Mas nada a agradava. Nada a fazia vibrar, nada lhe proporcionava prazeres reais, daqueles que nos fazem, ao menos por instantes, esquecer de nossa constituição corpórea finita, dolorida, insegura e que fingimos ser natural, agradável. Fingimos não sentir dor. Porque pensar, refletir sobre tal miserável condição traria loucura, extremos estados depressivos.
De dentro de seu corpo individual (porque, isso sim, ela sabia ser: individual), misturavam-se desejos particulares e sociais. Vibrava e ria de lábios fechados. A compreensão a havia atingido. Ela conhecia as coisas, a constituição da alma, mas não abandonara o corpo e a inter-relação com outros corpos, embora preferia mantê-las no plano sutil. Ela, aos poucos, compreendia sua relação com o meio. Com a dimensão a qual encontrava-se inserida.
Ela, algumas vezes, queria deixar o vento tocar sua pele, sair nua pela rua. Movimentos circulares, ela queria sair pelas ruas e que as ruas passassem por ela. E se ninguém? Ninguém a percebia. Poderiam ver e seguir suas vidas, mediocridade construída e bem querida. Desejos próprios, nascidos de mentes conscientes ao seu querer. É isso. A consciência é oferecida em bandejas de prata. Consciência saborosa, quem vai querer? Temperos exóticos, consciência temperada, quem vai querer? Pesa no estômago, mas é de graça! Quem vai querer?
Não, ninguém a quer. Ninguém deseja algo que estimulará cérebros adormecidos. Preguiça generalizada, um sono constante, zona confortável, acolchoada. Preferem assistir a tudo do lado de dentro. Atrás da janela é mais seguro, não? Pra que trazer novos pensamentos a um cérebro que nasceu cansado?
Onde mora o erro? Em mim ou neles? Pra que construir novas estrada quando as velhas já estão prontas e abarrotadas de pegadas sujas e confusas?
To be continued...
sexta-feira, 6 de março de 2009
Das horas de despedida
Sentada na banheira, com os joelhos dobrados, ainda seca. Os cabelos soltos coçam as minhas costas. Albinoni e Beethoven aos ouvidos, um olhar vago. Meu ímpeto dramático logo realoja minha mente num roteiro de cinema. Que intenso, que intensas sensações!
Com a vista na movimentação dos ponteiros, os dias se arrastam. Crio cenas, um passatempo.
Já tenho aura saudosa, já sinto falta de tudo que ainda me rodeia. Sem perceber, procuro toda intensidade das despedidas cinematográficas. Dei de colecionar acenos, abraços e lágrimas.
A estrada aguarda meus primeiros passos e minha alma troca de pele.
Com a vista na movimentação dos ponteiros, os dias se arrastam. Crio cenas, um passatempo.
Já tenho aura saudosa, já sinto falta de tudo que ainda me rodeia. Sem perceber, procuro toda intensidade das despedidas cinematográficas. Dei de colecionar acenos, abraços e lágrimas.
A estrada aguarda meus primeiros passos e minha alma troca de pele.
segunda-feira, 2 de março de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

de tanto não poder dizer
meus olhos deram de falar
só falta você ouvir
(De tanto querer dizer e não poder. De tanto ter e poder, mas não querer. De tanto sentir, mas não dizer. De tanto querer, mas não poder dizer. Dizer, mas não querer poder. Poder, dizer, não querer sentir. Sentir, mas não querer querer. Querer, não poder, sentir, mas não dizer. De tanto querer sentir, dizer, poder sentir. Querer, querer, querer sentir e dizer e poder, mas não ter coragem)
apaixonada
apaixotudo
apaixoquase
(Hoje, apaixonada. Amanhã, talvez apaixoquase, talvez apaixotudo. De agora em diante, apaixonada estarei por ti, por ele, por nós, vós, eles. Apaixotudo? Isso sim são outros quinhentos...)
viver ou morrer
é o de menos
a vida inteira
pode ser
qualquer momento
ser feliz ou não
questão de talento
(Questão de momento. Sofrer sim, tormento, questão de talento)
por favor
não me aperte tanto assim
tenha cuidado, pega leve
olha onde pisa
isso é meu coração
meu ganha-pão
instrumento de trabalho,
meio de vida, profissão
meu arroz com feijão
meu passaporte
para qualquer parte
para qualquer arte
não machuque esse meu coração
preciso dele
para me levar a Marte
sem sair do chão
não me aperte
não machuque
tome cuidado
eu vivo disso
poesia, sonhos
e outras canções
sem emoção
morro de fome
sinto muito
mas não há nada
que eu possa fazer
sem coração
(Isso é meu ganha-pão. E sem ele não vivo, não como, não durmo, não respiro. Pega leve, meu irmão. Durão? Isso aqui é coração mole. Mole como manteiga fora de geladeira, como pão amanhecido no leite, como braço de vó, figo maduro. Não aperta, pega leve. Isso aqui é meu coração mole)
* À Alice Ruiz. Às meninas. À poesia.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Pelas janelas virtuais
É numa intensa busca por um fôlego a mais, por um toque, um suspiro, que nos perdemos. Que deixamos projetos, propósitos e planos para depois, para mais tarde, para amanhã. É na busca que tudo parece menor, fora de órbita. É na busca que a esperança é renovada. Recriamos primeiras impressões. Renovamos o ímpeto que nos move a saciar o clamor do instinto. Dos sentidos. Nos rendemos à vontade pelo par. À vontade de deixar o medo para trás. De fazer parte de uma história. De criar vida. De ser lembrada.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Em dias assim, é difícil fugir da melancolia.
'Neste mundo de agonias
Há quem viva de ilusões
Com sorrisos de alegria
Com uma aos turbilhões
Faz pouco da realidade
Que é triste pra quem vive assim
E pensa que a felicidade
Se consegue pra sempre sem fim
Quando acorda é tarde, então
Vão atrás da felicidade
Mas queima em seu coração
A dor de uma triste saudade'
Maysa que o diga. A saudades bate, às vezes. Podia ter sido... com tantos, com tantas... podia ter sido.
'Neste mundo de agonias
Há quem viva de ilusões
Com sorrisos de alegria
Com uma aos turbilhões
Faz pouco da realidade
Que é triste pra quem vive assim
E pensa que a felicidade
Se consegue pra sempre sem fim
Quando acorda é tarde, então
Vão atrás da felicidade
Mas queima em seu coração
A dor de uma triste saudade'
Maysa que o diga. A saudades bate, às vezes. Podia ter sido... com tantos, com tantas... podia ter sido.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Quem quer saber?
Mesmo quando tudo pede um pouco mais calma, sigo esbarrando em grossos ombros criados por uma urgência de vida. Uma urgência que desaparece e vem à tona, num movimento ondulatório mais freqüente do que o planejado.
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma, os dias não esperam, não me esperam. Espero do mundo um pouco mais de paciência, só um pouco mais. Mas a vida não espera, não desacelera. E dela tiro pouco. Pouco a pouco.
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa. Vou numa dança particular, movimentos espontâneos. Queria eu tê-los ensaiado um pouco mais.
Mas a vida não pára. Retira meus segundos delirantes, os transforma em loucuras declaradas de uma mente não tão fantástica.
Enquanto todos esperam a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, eu grito, o corpo berra em mais uma certeza sem validade.
Será que tenho esse tempo pra perder?
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma, os dias não esperam, não me esperam. Espero do mundo um pouco mais de paciência, só um pouco mais. Mas a vida não espera, não desacelera. E dela tiro pouco. Pouco a pouco.
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa. Vou numa dança particular, movimentos espontâneos. Queria eu tê-los ensaiado um pouco mais.
Mas a vida não pára. Retira meus segundos delirantes, os transforma em loucuras declaradas de uma mente não tão fantástica.
Enquanto todos esperam a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, eu grito, o corpo berra em mais uma certeza sem validade.
Será que tenho esse tempo pra perder?
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