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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pianíssimo

Eu toco o dia no lugar errado. Caminho com a sensação de que estou tocando você no lugar errado, de uma maneira torta. Eu olho, olho e continuo tocando torto.

Percorri (eu percorro todos os dias) as notas e alguma coisa está errada. Sabe como se aparentemente as notas estivessem lá, enfileiradas, mas uma delas fosse menor? Pode ser maior também. Consegue imaginar?

Não sinto tristeza ou euforia, é só uma sensação de que estou tocando alguma nota errada. Estou tocando a dia errado, a cor errada. E eu não sei te dizer quando começou.

A nota errada está em algum lugar, mas meu ouvido nunca foi grande coisa.
Meu toque anda torto e não sei a quem pedir ouvidos bons.

Preciso de um juiz pra dizer se o que anda fora do compasso é a tecla ou dedo. Preciso de um doutor pra dizer se tem cura.

Preciso de dedos e de uma música nova também.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

how much you care?

Falar de solidão soa tão clichê que me dá náuseas.
Náuseas por encarar a tela branca de um computador como a melhor companhia.
Náuseas por estar aqui, sozinha de novo, comprovando minha deficiência.
Existe tanto sentimento que meu corpo incha e eu sinto enjôo. Enjôo de sentimento.
Minhas mãos tremem e eu só grito para a tela branca do computador. Enquanto toda emoção que me incha, encontra maneiras de explodir para fora do corpo.
Não costumo chorar, mas hoje foi a maneira que ele encontrou de existir.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Longo caminho

Chuto uma pedra que está entre meus pés e o resto da estrada. Nas costas, o que preciso para que a consciência permaneça terrena, no corpo, algo que me cobre. 
Meus olhos enxergam o horizonte que se movimenta, deserto, campo. Eles gostariam (mais do que meus ouvidos) de enxergar outros olhos. Mas o passo-após-passo da minha liberdade é solitário. Como um lobo que caminha sobre as folhas de um outono passado, como um andarilho que me tornei. 
Uma trilha sentida enfrenta o vento comigo, botas surradas protegem os pés que já levei pra muito longe daqui. 
E nada me prende ao que é passado. O ontem já é passado e se novas ideias povoam os campos vivos do meu cérebro, é nelas que acreditarei. Com toda força. Elas que impulsionam o próximo sorriso. É com elas que eu acordo todos os dias. E não com outros olhos. Minhas companheiras são as ideias. 
Minha petulância decide e me comunica depois. E hoje ela decidiu por mais. Decidi não ter limites para a estrada. 
E por ela que sempre me apaixonarei.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Obrigada por fumar

Tenho uma vontade desesperada agora. Daquelas que aparecem de ano em ano.
Meu corpo não se basta. Eu não me basto.
A vontade desesperada era fumar você, uma fumaça que me viciou. Passei anos longe da fumaça tóxica e você trouxe o vício tão fácil...
Sem querer – talvez querendo, querendo muito -, você trouxe a fumaça pro meu sangue que corre e alimenta as células. As células, que, hoje, só crescem bebendo a maldita fumaça. Maldito seja.
Você trouxe o veneno. Agora meu sangue pressiona as veias e ameaça romper a pele em troca de mais fumaça. Pede a maldita fumaça, dia após dia.
Era isso que você queria? Tudo não passou de um teste para medir a potência do seu veneno.
Veneno maldito que me viciou. Veneno que me faz desejar sua fumaça todas as noites (à noite o vício sempre parece maior).
Sou fraca demais para abandonar um vício. Você deveria saber.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sopro no ouvido

você tem muito o que chorar, menina.
um, dois, três e tudo acontece? não é assim, não.
é trabalho suado, corte de cana, terra revirada.
tua boca vai sentir muita secura ainda, teu olhar vai se perder em muita luz forte.
o veneno da raiva vai amargar muito tua garganta, menina.
fica tranquila que muita injustiça vai passar pelo toque dos seus dedos.
fica tranquila.

mas uma coisa eu te digo: não deixa de acreditar, não.
acreditar lá do fundo do céu da sua boca, lá da raspa do seu peito, que você merece mais.

domingo, 16 de janeiro de 2011

meus dias

nunca soube. mas agora parece tão fácil.
tão fácil.

sentir e só respirar e deixar o que te conduz... te conduzir. o medo chega, mas, de repente, um olhar transforma tudo.

um abraço, seus dedos sobre os meus e as dúvidas se escondem, pegam o final da fila. elas pegam o final da fila todos os dias.

(ele ama o mundo e isso muda tudo)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

descreva o que você vê em mim

seu céu tem outra cor
você sente cores que eu não reconheço mais
uma cegueira circunstancial

sinto outro gosto
seu paladar mudou permanentemente
nosso sabor não nasce mais no mesmo lugar

os ouvidos acostumaram a outros timbres
minha inocência musical foi violada

sinto cheio de flor, de mar, não do mesmo suor
seu olfato perdeu a sutileza para o cinismo

só me resta acreditar no toque.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Te quero todo poesia

Levantei do sofá.
Não quero ficar nem mais um minuto na frente do que me leva ao meu desejo mais profundo.
Vejo imagens e desejo tão intensamente uma vida de poesia, que o mais impossível é reter as lágrimas que velam minhas escolhas.
Quero respirar arte, caminhar palavras e me alimentar de notas.
Aqueles minutos, aquele chão que assiste o nascer lírico. Quero mais, quero você. Quero o ir e vir da mente livre, quero as mãos sobre o papel, quero o sem tempo para o compromisso.
Quero o não pensar, seus braços sobre meus peitos, assim, só por questão de inspiração. O resto a gente deixa pra depois.
Quero não me preocupar, não planejar, quero a liberdade do teu cheiro à tarde e de sentir o gosto dos dias inteiros de suor.
Quero amar o despertar e amar vendo o tempo passar.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Acho que lembrei

Li algo sobre aquela sensação de que se está esquecendo algo. É um fato, é diário. É grande, é uma sensação que dura anos.
De alguns meses para cá, acordo todos os dias com a sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos. Cinco minutos depois, sinto um frio no alto do estômago, uma sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos.
E de cinco em cinco minutos a vida se faz.
Talvez seja a vida preparando meu corpo, talvez seja loucura. Talvez seja o prenúncio de um desastre, talvez seja algo sem a menor importância.
Além de esquecer algo todos os dias, todos os dias, em alguma realidade paralela, coisas inesquecíveis acontecem. Ou não.
Talvez seja só meu verbo anunciando o fim do esquecer sem fim. Acho que encontrei um fim.
Só consigo lembrar que andei distraída demais. Foram anos... distraída demais.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma chuva pra secar

Sabe do que fala a pior dor que você sente numa noite chuvosa qualquer?
De segredo.

Um segredo que não se encaixa, transborda. Uma verdade pouco conveniente, inconsequentemente espalhada. E, como consequência, inconvenientemente guardada de quem controla (remotamente, claro) as rédeas.

Um objeto cego. Um objetivo incolor, quase uma sombra. Uma sombra que não me assusta: ao contrário, salva.

Minha fé é feita de pequenos casulos recheados de perspectiva. Perspectiva endurecida, perspectiva açucarada, perspectiva morna. Milagre ainda cru.

Segredos me doem hoje. Devo esperar um milagre?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Toca minha vida, vai

Ei, você. Olha aqui pra dentro um pouco.
Percebe que minha falta de fome não é regime forçado, que minha euforia não é verdadeira. Deixa isso de lado e não se afasta de mim. Pergunta do meu dia, da minha nova mania, deixa eu te contar que parei de estalar os dedos.
Esquece seu mundo e pergunta sobre meu sono, pergunta o que eu farei com 63 anos. E deixa eu te contar de amores e da torta que aprendi a fazer.
Esquece seu mundo hoje e diz que morre de saudades. Diz de novo. Deixa eu contar da cidade que criei pra nós e da sua cadeira no canto. E da cena de nós dois, deitados na cama branca, os olhos no teto branco.
Deixa suas horas pra lá e escuta os diálogos, palavra por palavra que escrevi e vi como real. Aconteceu, eu juro.
Projetei um você aqui dentro e, assim, evitei a morte.

sábado, 23 de outubro de 2010

Fundo dos olhos

Era uma sala ampla. Branca. A luz da tarde invadia aquele chão de madeira, um tapete colorido e três crianças. Minhas crianças. Não vi feições, apenas as vi sentadas sobre o tapete, a luz da tarde no chão de madeira.
Eu, dedos no piano. Um piano no canto daquela sala. Uma sala ampla, branca. Lá fora um jardim, árvores, flores, quem sabe até um cachorro.
O som era só o do vento, das teclas do piano, das crianças no chão.
Apertei bem os olhos, sorri e logo o cheiro do café invadia o contorno da cena.
Lá da cozinha, ouvi palavras que não precisavam de interpretações. Ele poderia murmurar qualquer som e eu saberia ouvir. Eu ouviria amor em qualquer murmúrio.
Com aquele desenho, eu ouviria amor em qualquer canto.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Reflections of a Skyline



E querer ter te conhecido desde sempre.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Abri os olhos mais uma vez. Era cedo ainda e senti frio. Logo encolhi as pernas pra proteger o pé da brisa que entrava pela fresta da janela e fechei os olhos.
Quando fecho os olhos pela manhã, perco a noção de espaço, esqueço de puxar o ar e me falta a memória: nunca lembro quanto tempo permaneci ali, olhos fechados.
Hoje acordei, abri os olhos, encolhi o pé e pensei em você.
Sonhei em olhar para o lado, os pés encolhidos, e encontrar aquele meio sorriso, seus olhos ainda apertados pela luz. Sonhei em acordar, olhar em volta e encontrar o quarto de sempre, sentir o cheiro conhecido, saber onde repousar minhas mãos.
Sonhei em dar bom dia do jeito que você gosta, em ir até a cozinha e preparar o café com pouco açúcar. Sonhei em encontrar o pó naquele mesmo armário, as colheres bagunçadas na gaveta de sempre.
Sonhei com aquele susto conhecido, suas mãos em volta da minha cintura.
Sonhei que passávamos o dia na cama, entre café e pés e pernas, e que assistíamos o pôr do sol, os dois espremidos pelo pouco espaço da veneziana.
Sonhei em sentir tudo o que estou sentindo e não ter medo e encontrar seu nome fácil nos lábios e contar da formiga que vi passeando pelo chão.  
Os pés encolhidos, os olhos fechados, sonhei que era simples. Sonhei que, de repente, tudo era exatamente do jeito que eu sempre imaginei. Assim, só pra variar.


Se eu pudesse escolher uma única certeza, escolheria a certeza de que o que eu sinto é real. E, então, minhas palavras teriam um nome. E um dono. Eu correria e contaria pra você a novidade. Uma notícia que demorou anos pra chegar aqui dentro, mas que despertou em você no primeiro instante.    

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poder a quem quer poder

Um dia de líquidos.

Desde que acordei água, café, água de novo, cerveja, café, chá. Aguardo pacientemente que o líquido desmanche algo. Algo que consolida o peito e faz com que os braços fiquem rígidos em situações das mais variadas. Meu esforço em impedir que meu olhar se perca é tamanho, que me esqueço dos braços. E eles ficam lá, sem saber o que fazer, apoiados sobre a mesa, cruzados, soltos, não acham lugar. Meus braços deram pra sobrar nos almoços. E jantares. E bares. Deram de não se encaixar mais.

As mãos não. As mãos também sentem, mas, ao menos, elas têm uma a outra. Quando percebo, lá estão as duas, juntas, em uma tentativa insana de esquentar-se. Tento dizer o que me ensinaram... mãos frias e o coração lá. Elas duvidam do que eu conto, ignoram meus conselhos, e continuam no vai-e-vem particular. Sou excluída sem dó.

Minha boca deu de absorver a preguiça das tardes de terça-feira. E agora é uma preguiça só, cala para não ter de continuar além da terceira frase.

Os olhos não olham mais, a digestão tirou licença. Meu corpo, assim, sem mais, deu de ficar rebelde. Simplesmente não encaixa. Não há santo que o obrigue a atender minhas ordens.

É greve, ouvi dizerem por aí. É greve, Natane.

De tanto negar o que há dentro do peito, meu corpo, numa atitude um tanto política demais, pediu Diretas Já. Agora quer votar pelo futuro.

Sem saber o que fazer, eu, rendida, retiro a razão do trono e democratizo minhas escolhas. Pelos novos tempos, companheiros. Pelos novos tempos.

domingo, 26 de setembro de 2010

Inferno

* Tati Bernardi

Começou quando comi o terceiro sonho de valsa e eu nem estava com fome. Mais tarde, na segunda colherada de sopa, eu já queria vomitar, mas estava morta de fome. Conheço de longe, ou tão de perto, a tensão sexual: é a fome matadora que enjoa. É estar inflada demais pra se saciar, mas de um tamanho desproporcional para ficar saciada. Não faz sentido e é bem bobo de querer fazer. É vontade de mastigar algo, mas uma mão sai de dentro do estômago, passa pela boca e quer estapear o mundo. É desejo de porcaria e necessidade de vitamina. É preciso triturar, mas só passa líquido, quando passa. É a esquizofrenia da gana.


Dai decidi que agora não. Ah, agora não. Tudo de novo? Não. Então peguei meu celular, assim, meio ocupada, óculos e tal e mordendo o lábio inferior um pouco ressecado e, sem dó, deletei seu número de celular. Deletei as mensagens de texto também. E deletei seu nome e as fotos e a música e tudo.

E deletei você de tudo que me informa da sua vida e do lugar mais difícil de todos: do lixo do computador. Foi quando piorei. Vi seu carro parado na rua de trás e quebrei inteiro. Vi sua casa e ateei fogo. E vi você andando na rua e te atropelei. E nada adiantou. Porque você é antes de agora. Então voltei no mundo e deletei seu começo. E deletei o mundo. E deletei a explosão cósmica.

E nada adiantou, nada, porque desejo se forma em um lugar que é de onde somos também. Então eu teria que me deletar. E não adiantaria de agora, tipo: “não existo! Valendo!”. Teria que ser de antes. Mas complicou demais. E é por isso que escrevo isso da sua sala iluminada pelo sol mais feliz de todos que é o sol do dia seguinte quando ainda estamos no dia anterior. A vida que ultrapassa a gente só porque esses pequenos momentos de amor nos congelam dando uma falsa sensação de que pode ser bom pra sempre. Enquanto você dorme com uma camiseta cheirosa e é, posso dizer com certeza, a pessoa mais bonita que eu já vi numa cama desarrumada. Poucas coisas são tão claras como isso que percebo agora: você é tão bonito que eu tenho esse riso congelado mesmo quando está insuportável fazer xixi baixinho porque a droga do seu banheiro é colado com a cama sem ter uma mísera parede. Odeio as casas modernas e os casais modernos e o sexo moderno e ser moderna. Eu quero parar com essa vidinha e ter um amor pra vida. Mas e mas e mas e mas. Você é tão bonito que renova a mesmice do cinismo amoroso. Por você vale qualquer sombra na alma.

E é isso. Agora é suspirar feito besta, meus celulares e e-mails e o ar voltam a ser objetos de tortura, sempre a espera da próxima vez que você vai me pedir que morda o violão pra escutar a música dentro do cérebro. E você desafinando e meu cérebro consertando tudo dentro da minha imaginação. Não é amor porque amor é mais do que essa escravidão estética. Não é paixão porque eu só me apaixono por quem eu quero destruir e eu só quero limpar com uma palhinha de ouro seu corpo num pedestal. Não é só tesão, porque eu passaria o resto da minha existência fazendo carinho nos cachos do seu cabelo e você com 18 metros de altura parecendo um menino. Não é nada dessas coisas todas que a gente separa numa caixinha da mente pra continuar arrumando o resto das gavetas da vida. Então o quê? É isso, o xixi baixinho olhando a pessoa mais bonita que já vi numa cama desarrumada. É encantamento puro com um pouco de dor porque até a falta de dor tem muito de dor. E mais o sol e mais as formigas e mais a camiseta cheirosa e o xixi baixinho. É só o inferno.

sábado, 18 de setembro de 2010

Às vezes, os disfarce se vai



Eu realmente sinto o que ninguém entende.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

amar é sentir saudades do ser amado enquanto se está com ele

sábado, 31 de julho de 2010

Enquanto ideia



O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

E ai de quem disse que o amor engole, calado, o que está aí.
Ai de quem bradou que forte é o amor que suporta calado.
Ai de quem bateu de porta em porta dizendo que o amor é pedra, que o amor é sólido.
E ai de quem duvida que o amor é desenhado. Com ou sem chuva, um dia, os traços compuseram o desenho. Ai de quem duvida.

Mas amor é ideal. Amor é ideia e não desce morro. O amor existe porque existe a ideia. Porque é desenhado. A ideia do amor existe enquanto existir ideia. E mente quem não ama a ideia do amor.
Quem de nós ama além?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Vagabond



Sem esperanças para, assim, entre roupas mal lavadas, encontrar o que havia perdido e nem sabia que havia perdido.

O dia, o Deus, mostra o canto da minha verdadeira liberdade. Ser e errar na minha liberdade.

De louca e vagabunda, encontro o lugar de onde eu nunca deveria ter saído.