Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poder a quem quer poder

Um dia de líquidos.

Desde que acordei água, café, água de novo, cerveja, café, chá. Aguardo pacientemente que o líquido desmanche algo. Algo que consolida o peito e faz com que os braços fiquem rígidos em situações das mais variadas. Meu esforço em impedir que meu olhar se perca é tamanho, que me esqueço dos braços. E eles ficam lá, sem saber o que fazer, apoiados sobre a mesa, cruzados, soltos, não acham lugar. Meus braços deram pra sobrar nos almoços. E jantares. E bares. Deram de não se encaixar mais.

As mãos não. As mãos também sentem, mas, ao menos, elas têm uma a outra. Quando percebo, lá estão as duas, juntas, em uma tentativa insana de esquentar-se. Tento dizer o que me ensinaram... mãos frias e o coração lá. Elas duvidam do que eu conto, ignoram meus conselhos, e continuam no vai-e-vem particular. Sou excluída sem dó.

Minha boca deu de absorver a preguiça das tardes de terça-feira. E agora é uma preguiça só, cala para não ter de continuar além da terceira frase.

Os olhos não olham mais, a digestão tirou licença. Meu corpo, assim, sem mais, deu de ficar rebelde. Simplesmente não encaixa. Não há santo que o obrigue a atender minhas ordens.

É greve, ouvi dizerem por aí. É greve, Natane.

De tanto negar o que há dentro do peito, meu corpo, numa atitude um tanto política demais, pediu Diretas Já. Agora quer votar pelo futuro.

Sem saber o que fazer, eu, rendida, retiro a razão do trono e democratizo minhas escolhas. Pelos novos tempos, companheiros. Pelos novos tempos.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Manifesto pela falta de equilíbrio


Puxam o ar, ponderam, pensam, engolem. Estão todos, frenéticos, todos buscando um tal caminho do meio. De meio, eu não quero uma grama. Meio é morno. Meio é tom pastel. Um viva à falta de equilíbrio.

Centro. Não é esquerda. Nem direita. É um tal de centro-esquerda, centro-centro, centro-direita. É um tal de sobre o muro. Um tal de nem quente, nem frio. Um tal de vamos ponderar. Um tal de não grite, não sussurre, não corra, siga.

Quero vivas à falta de equilíbrio. Equilibrados me entristecem.

Certo dia, num buraco qualquer, alguém falou sobre um tal caminho do meio. Bendito seja o santo, mal-ditas palavras. Elas reverberam à minha volta, mal-ditas palavras. E as pessoas reproduzem: 'Queremos equilíbrio, equilíbrio!', 'Queremos caminho do meio', 'O segredo da felicidade é o caminho do meio!', 'Caminho do meio caminho do meio caminho do meio caminho do'. Bobagem.

Não reproduza caminhos do meio ao meu lado.

É com o desequilíbrio que eu deito todas as noites.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O amor é público


Olhos firmes, sou eu. Aberta. Máscara no rosto, sempre aberta.

Sem jeito pra muitos amigos, costumam me confundir com mulheres assim. Daquelas, assim, tão apaixonadas por espelhos que, de tão enamoradas pelo próprio contorno, não são capazes de reconhecer qualquer outro.

Mas, não.

Revelo minha cegueira para os que escolho a dedo. Sou meio cega, gaga, meio manca. Mas são poucos os que me despem e, chocados, contemplam um ser defeituoso. Contemplam, com olhos grandes, a falta de um dedo, os cabelos caindo, dentes amarelados.

É visão para poucos. Corajosos.

E, de uma lista tão exclusiva, coitados, quero falar sobre um.

Se liberdade de expressão é lei, torno o íntimo público. Pedaços de mim, públicos. A podridão da minha cegueira deixo para os fortes, mas, meu íntimo, torno-o público.

Esta é uma carta aberta a quem, assim como espuma, preenchia cada vazio:

"Coração,
Assim como espuma, você preencheu o que faltava. Amor de outono.
De uma hora para outra, aquelas pegadas, maiores do que meu pé número 40, já não me faziam ir ao chão. Você as completava.
Minha mão já não apertava o escuro, mas outra mão, que, sorte a minha, estava sempre quente.
Você conheceu águas profundas, meu caro. E isso é algo para se lembrar. Conheceu águas profundas e soube respirar fundo. Sobreviveu a duras provas. Poucos o fizeram. E com tanta entrega... não.
Algo aconteceu, os pés erraram o passo, mas o outono nunca será o mesmo.
Devo-te uma orelha minha pelos testes de paciência, pelas palavras bruscas, reprovação, desaprovação, inadequação. E pelas semanas de TPM.
Devo-te a outra orelha pelos amigos apresentados, pelas experiências (somos bons em experiências) e por forçar meus sentimentos diante dos próprios reflexos.
Sem tua espuma, meu amor de outono, não sei não. Eu ainda estaria repleta de vazios.
E maiores do que os que eu posso ver hoje, com você tão longe dos meus minutos."