quinta-feira, 8 de julho de 2010

O amor é público


Olhos firmes, sou eu. Aberta. Máscara no rosto, sempre aberta.

Sem jeito pra muitos amigos, costumam me confundir com mulheres assim. Daquelas, assim, tão apaixonadas por espelhos que, de tão enamoradas pelo próprio contorno, não são capazes de reconhecer qualquer outro.

Mas, não.

Revelo minha cegueira para os que escolho a dedo. Sou meio cega, gaga, meio manca. Mas são poucos os que me despem e, chocados, contemplam um ser defeituoso. Contemplam, com olhos grandes, a falta de um dedo, os cabelos caindo, dentes amarelados.

É visão para poucos. Corajosos.

E, de uma lista tão exclusiva, coitados, quero falar sobre um.

Se liberdade de expressão é lei, torno o íntimo público. Pedaços de mim, públicos. A podridão da minha cegueira deixo para os fortes, mas, meu íntimo, torno-o público.

Esta é uma carta aberta a quem, assim como espuma, preenchia cada vazio:

"Coração,
Assim como espuma, você preencheu o que faltava. Amor de outono.
De uma hora para outra, aquelas pegadas, maiores do que meu pé número 40, já não me faziam ir ao chão. Você as completava.
Minha mão já não apertava o escuro, mas outra mão, que, sorte a minha, estava sempre quente.
Você conheceu águas profundas, meu caro. E isso é algo para se lembrar. Conheceu águas profundas e soube respirar fundo. Sobreviveu a duras provas. Poucos o fizeram. E com tanta entrega... não.
Algo aconteceu, os pés erraram o passo, mas o outono nunca será o mesmo.
Devo-te uma orelha minha pelos testes de paciência, pelas palavras bruscas, reprovação, desaprovação, inadequação. E pelas semanas de TPM.
Devo-te a outra orelha pelos amigos apresentados, pelas experiências (somos bons em experiências) e por forçar meus sentimentos diante dos próprios reflexos.
Sem tua espuma, meu amor de outono, não sei não. Eu ainda estaria repleta de vazios.
E maiores do que os que eu posso ver hoje, com você tão longe dos meus minutos."

4 comentários:

Xisto, M. disse...

Uau... Lindo, mesmo.

Brando disse...

A pessoa com certeza ficou muito feliz em ler isso. De verdade.

Leandro Guima disse...

lindo. lindo demais.

petala disse...

são sim, esses amores que florescem com a primavera e se aconchegam na cama quente do inverno.