Levantei do sofá.
Não quero ficar nem mais um minuto na frente do que me leva ao meu desejo mais profundo.
Vejo imagens e desejo tão intensamente uma vida de poesia, que o mais impossível é reter as lágrimas que velam minhas escolhas.
Quero respirar arte, caminhar palavras e me alimentar de notas.
Aqueles minutos, aquele chão que assiste o nascer lírico. Quero mais, quero você. Quero o ir e vir da mente livre, quero as mãos sobre o papel, quero o sem tempo para o compromisso.
Quero o não pensar, seus braços sobre meus peitos, assim, só por questão de inspiração. O resto a gente deixa pra depois.
Quero não me preocupar, não planejar, quero a liberdade do teu cheiro à tarde e de sentir o gosto dos dias inteiros de suor.
Quero amar o despertar e amar vendo o tempo passar.
domingo, 26 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Acho que lembrei
Li algo sobre aquela sensação de que se está esquecendo algo. É um fato, é diário. É grande, é uma sensação que dura anos.
De alguns meses para cá, acordo todos os dias com a sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos. Cinco minutos depois, sinto um frio no alto do estômago, uma sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos.
E de cinco em cinco minutos a vida se faz.
Talvez seja a vida preparando meu corpo, talvez seja loucura. Talvez seja o prenúncio de um desastre, talvez seja algo sem a menor importância.
Além de esquecer algo todos os dias, todos os dias, em alguma realidade paralela, coisas inesquecíveis acontecem. Ou não.
Talvez seja só meu verbo anunciando o fim do esquecer sem fim. Acho que encontrei um fim.
Só consigo lembrar que andei distraída demais. Foram anos... distraída demais.
De alguns meses para cá, acordo todos os dias com a sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos. Cinco minutos depois, sinto um frio no alto do estômago, uma sensação de que algo inesquecível será realidade dali cinco minutos.
E de cinco em cinco minutos a vida se faz.
Talvez seja a vida preparando meu corpo, talvez seja loucura. Talvez seja o prenúncio de um desastre, talvez seja algo sem a menor importância.
Além de esquecer algo todos os dias, todos os dias, em alguma realidade paralela, coisas inesquecíveis acontecem. Ou não.
Talvez seja só meu verbo anunciando o fim do esquecer sem fim. Acho que encontrei um fim.
Só consigo lembrar que andei distraída demais. Foram anos... distraída demais.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Uma chuva pra secar
Sabe do que fala a pior dor que você sente numa noite chuvosa qualquer?
De segredo.
Um segredo que não se encaixa, transborda. Uma verdade pouco conveniente, inconsequentemente espalhada. E, como consequência, inconvenientemente guardada de quem controla (remotamente, claro) as rédeas.
Um objeto cego. Um objetivo incolor, quase uma sombra. Uma sombra que não me assusta: ao contrário, salva.
Minha fé é feita de pequenos casulos recheados de perspectiva. Perspectiva endurecida, perspectiva açucarada, perspectiva morna. Milagre ainda cru.
Segredos me doem hoje. Devo esperar um milagre?
De segredo.
Um segredo que não se encaixa, transborda. Uma verdade pouco conveniente, inconsequentemente espalhada. E, como consequência, inconvenientemente guardada de quem controla (remotamente, claro) as rédeas.
Um objeto cego. Um objetivo incolor, quase uma sombra. Uma sombra que não me assusta: ao contrário, salva.
Minha fé é feita de pequenos casulos recheados de perspectiva. Perspectiva endurecida, perspectiva açucarada, perspectiva morna. Milagre ainda cru.
Segredos me doem hoje. Devo esperar um milagre?
domingo, 12 de dezembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
Espasmos de uma confissão
Dizem que é coisa de maluco. Dizem que é carência. Dizem que é alucinação.
Eles dizem que é um erro.
(E eu só penso em pedir perdão e dizer me perdoa por todo o tempo me perdoa por toda indiferença perdão meu amor eu não sabia quem eu era eu não soube nomear a mão que explodia de dentro do meu peito e gesticulava que você é quem habita e sempre habitou minhas cenas)
Como passatempo te imaginei em mim. E quem diria: tornei meu corpo a matéria das minhas próprias fantasias.
Eles dizem que é um erro.
(E eu só penso em pedir perdão e dizer me perdoa por todo o tempo me perdoa por toda indiferença perdão meu amor eu não sabia quem eu era eu não soube nomear a mão que explodia de dentro do meu peito e gesticulava que você é quem habita e sempre habitou minhas cenas)
Como passatempo te imaginei em mim. E quem diria: tornei meu corpo a matéria das minhas próprias fantasias.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Não há o que eu precise
Resta tão pouco a acreditar. Já tive fé na mãe, no vizinho, nos meus olhos, no que cortava o céu, no pouco, no muito, em mim, no amor. E como tudo é líquido, hora ou outra: derrete.
Já pensei em apenas acreditar no passado. Mas veja só, ele também não existe. Futuro? Não existe. E o presente, cúmulo do efêmero, não se dá ao respeito. Não merece nossa fé, nossa crença, nossa atenção.
Já acreditei na união, nas drogas, nos livros. Acredite: pinga gotas, hora ou outra: derrete.
A crença em qualquer crença está morta. Política, arte, motim, família, estrada. Quando digo que pouco em que acreditar me resta, acredite. Você ainda pode acreditar em mim. Mas, a mim, resta pouco.
Eu seria capaz de revirar lixos em busca de crenças, se acreditasse na felicidade de crer novamente. Felizes os que crêem. Mas também não acredito nisso. Crer já é por si só uma mentira, um estupro mental.
Eis o paradoxo: só há vida onde há mentira e, se é mentira, logo eu não creio. Então, sem fé, ninguém é capaz de viver?
Sobrevivo com o benefício da dúvida. Benefício que me foi concedido por solidariedade à minha incapacidade de crer. Assistencialismo puro.
Não digo que levo uma vida digna, mas não há do que reclamar.
Recebo minhas cotas de questionamento e me alimento com o que sobra dali.
Não há cura para descrença crônica.
Já pensei em apenas acreditar no passado. Mas veja só, ele também não existe. Futuro? Não existe. E o presente, cúmulo do efêmero, não se dá ao respeito. Não merece nossa fé, nossa crença, nossa atenção.
Já acreditei na união, nas drogas, nos livros. Acredite: pinga gotas, hora ou outra: derrete.
A crença em qualquer crença está morta. Política, arte, motim, família, estrada. Quando digo que pouco em que acreditar me resta, acredite. Você ainda pode acreditar em mim. Mas, a mim, resta pouco.
Eu seria capaz de revirar lixos em busca de crenças, se acreditasse na felicidade de crer novamente. Felizes os que crêem. Mas também não acredito nisso. Crer já é por si só uma mentira, um estupro mental.
Eis o paradoxo: só há vida onde há mentira e, se é mentira, logo eu não creio. Então, sem fé, ninguém é capaz de viver?
Sobrevivo com o benefício da dúvida. Benefício que me foi concedido por solidariedade à minha incapacidade de crer. Assistencialismo puro.
Não digo que levo uma vida digna, mas não há do que reclamar.
Recebo minhas cotas de questionamento e me alimento com o que sobra dali.
Não há cura para descrença crônica.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Toca minha vida, vai
Ei, você. Olha aqui pra dentro um pouco.
Percebe que minha falta de fome não é regime forçado, que minha euforia não é verdadeira. Deixa isso de lado e não se afasta de mim. Pergunta do meu dia, da minha nova mania, deixa eu te contar que parei de estalar os dedos.
Esquece seu mundo e pergunta sobre meu sono, pergunta o que eu farei com 63 anos. E deixa eu te contar de amores e da torta que aprendi a fazer.
Esquece seu mundo hoje e diz que morre de saudades. Diz de novo. Deixa eu contar da cidade que criei pra nós e da sua cadeira no canto. E da cena de nós dois, deitados na cama branca, os olhos no teto branco.
Deixa suas horas pra lá e escuta os diálogos, palavra por palavra que escrevi e vi como real. Aconteceu, eu juro.
Projetei um você aqui dentro e, assim, evitei a morte.
Percebe que minha falta de fome não é regime forçado, que minha euforia não é verdadeira. Deixa isso de lado e não se afasta de mim. Pergunta do meu dia, da minha nova mania, deixa eu te contar que parei de estalar os dedos.
Esquece seu mundo e pergunta sobre meu sono, pergunta o que eu farei com 63 anos. E deixa eu te contar de amores e da torta que aprendi a fazer.
Esquece seu mundo hoje e diz que morre de saudades. Diz de novo. Deixa eu contar da cidade que criei pra nós e da sua cadeira no canto. E da cena de nós dois, deitados na cama branca, os olhos no teto branco.
Deixa suas horas pra lá e escuta os diálogos, palavra por palavra que escrevi e vi como real. Aconteceu, eu juro.
Projetei um você aqui dentro e, assim, evitei a morte.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Miedo
Pensei muito no medo hoje. Em como eu nunca assumi medo e sobre todos os medos que convivem por aqui. E descobri que tenho todos eles.
Descobri que não ando me vendendo muito bem.
sábado, 23 de outubro de 2010
Fundo dos olhos
Era uma sala ampla. Branca. A luz da tarde invadia aquele chão de madeira, um tapete colorido e três crianças. Minhas crianças. Não vi feições, apenas as vi sentadas sobre o tapete, a luz da tarde no chão de madeira.
Eu, dedos no piano. Um piano no canto daquela sala. Uma sala ampla, branca. Lá fora um jardim, árvores, flores, quem sabe até um cachorro.
O som era só o do vento, das teclas do piano, das crianças no chão.
Apertei bem os olhos, sorri e logo o cheiro do café invadia o contorno da cena.
Lá da cozinha, ouvi palavras que não precisavam de interpretações. Ele poderia murmurar qualquer som e eu saberia ouvir. Eu ouviria amor em qualquer murmúrio.
Com aquele desenho, eu ouviria amor em qualquer canto.
Eu, dedos no piano. Um piano no canto daquela sala. Uma sala ampla, branca. Lá fora um jardim, árvores, flores, quem sabe até um cachorro.
O som era só o do vento, das teclas do piano, das crianças no chão.
Apertei bem os olhos, sorri e logo o cheiro do café invadia o contorno da cena.
Lá da cozinha, ouvi palavras que não precisavam de interpretações. Ele poderia murmurar qualquer som e eu saberia ouvir. Eu ouviria amor em qualquer murmúrio.
Com aquele desenho, eu ouviria amor em qualquer canto.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
Há algo de podre
Não.
Sei lá, me deixa, deixa eu andar, sugar o ar, dar passos sem pretensão, risadas do tolo.
Não posso.
Solta, volte a dormir, apague a luz, sei lá, só me dê as chaves, as chaves pra voltar a viver.
Eu faço parte disso.
Tudo bem. Então prepare um copo de veneno, uma prisão de gelo, o descarrilamento de um trem. Jogue meu corpo nos trilhos.
Vou morrer também.
Mas é isso o que você quer! Com os dentes cravados no que eu poderia ser. Você quer sobreviver, mas, no final, sabe que vai morrer. Sabe que não aguentaremos. No final, você quer morrer.
Sua melancolia me alimenta.
Não! Quem injeta toda melancolia em mim é você. Não pode ser. Não é.
Sua melancolia me alimenta e eu cravo os dentes. Chego ao abismo.
Eu não me importo onde você chega, eu não dou a mínima. Não quero o abismo. Passei a vida trançando cordas, costurando um caminho.
Eu nasci no abismo. Eu faço parte de você e você de mim. Você já é abismo.
A escolha não está em suas mãos. Conheci pouco do que vale a pena, mas tenho mais desejo do que nunca. Isso não está certo, não pode estar certo.
Não há justiça. Tudo simplesmente é.
Tarde demais para vivermos separados, né?
Tarde demais, minha cara.(a foto é do ffffound, pra variar)
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Abri os olhos mais uma vez. Era cedo ainda e senti frio. Logo encolhi as pernas pra proteger o pé da brisa que entrava pela fresta da janela e fechei os olhos.
Quando fecho os olhos pela manhã, perco a noção de espaço, esqueço de puxar o ar e me falta a memória: nunca lembro quanto tempo permaneci ali, olhos fechados.
Hoje acordei, abri os olhos, encolhi o pé e pensei em você.
Sonhei em olhar para o lado, os pés encolhidos, e encontrar aquele meio sorriso, seus olhos ainda apertados pela luz. Sonhei em acordar, olhar em volta e encontrar o quarto de sempre, sentir o cheiro conhecido, saber onde repousar minhas mãos.
Sonhei em dar bom dia do jeito que você gosta, em ir até a cozinha e preparar o café com pouco açúcar. Sonhei em encontrar o pó naquele mesmo armário, as colheres bagunçadas na gaveta de sempre.
Sonhei com aquele susto conhecido, suas mãos em volta da minha cintura.
Sonhei que passávamos o dia na cama, entre café e pés e pernas, e que assistíamos o pôr do sol, os dois espremidos pelo pouco espaço da veneziana.
Sonhei em sentir tudo o que estou sentindo e não ter medo e encontrar seu nome fácil nos lábios e contar da formiga que vi passeando pelo chão.
Os pés encolhidos, os olhos fechados, sonhei que era simples. Sonhei que, de repente, tudo era exatamente do jeito que eu sempre imaginei. Assim, só pra variar.
Se eu pudesse escolher uma única certeza, escolheria a certeza de que o que eu sinto é real. E, então, minhas palavras teriam um nome. E um dono. Eu correria e contaria pra você a novidade. Uma notícia que demorou anos pra chegar aqui dentro, mas que despertou em você no primeiro instante.
domingo, 10 de outubro de 2010
Mais um dia e, quem sabe, perto
Apenas dois meses atrás e eu costumava sentir raiva ao escutar as primeiras síladas dessa música.
Longa história.
Hoje, cá estou, compartilhando a doçura.
Ela não traz nada de original ou inovador, mas, hoje, está no repeat. Apesar das lembranças de doses de intolerância, ela acalma um pouco a sensação de que tudo está no fim.
Teimo em achar que tudo está no fim e que minha cota de vida já foi gasta. Não falo de morte, mas de ausência de vida. Ausência do que chamo de vida.
Teimo em criar conclusões para os meus dias. E a acreditar que, daqui pra frente, minha única missão é preencher as horas.
Ok. Ando assistindo a filmes e seriados demais.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Poder a quem quer poder
Um dia de líquidos.
Desde que acordei água, café, água de novo, cerveja, café, chá. Aguardo pacientemente que o líquido desmanche algo. Algo que consolida o peito e faz com que os braços fiquem rígidos em situações das mais variadas. Meu esforço em impedir que meu olhar se perca é tamanho, que me esqueço dos braços. E eles ficam lá, sem saber o que fazer, apoiados sobre a mesa, cruzados, soltos, não acham lugar. Meus braços deram pra sobrar nos almoços. E jantares. E bares. Deram de não se encaixar mais.
As mãos não. As mãos também sentem, mas, ao menos, elas têm uma a outra. Quando percebo, lá estão as duas, juntas, em uma tentativa insana de esquentar-se. Tento dizer o que me ensinaram... mãos frias e o coração lá. Elas duvidam do que eu conto, ignoram meus conselhos, e continuam no vai-e-vem particular. Sou excluída sem dó.
Minha boca deu de absorver a preguiça das tardes de terça-feira. E agora é uma preguiça só, cala para não ter de continuar além da terceira frase.
Os olhos não olham mais, a digestão tirou licença. Meu corpo, assim, sem mais, deu de ficar rebelde. Simplesmente não encaixa. Não há santo que o obrigue a atender minhas ordens.
É greve, ouvi dizerem por aí. É greve, Natane.
De tanto negar o que há dentro do peito, meu corpo, numa atitude um tanto política demais, pediu Diretas Já. Agora quer votar pelo futuro.
Sem saber o que fazer, eu, rendida, retiro a razão do trono e democratizo minhas escolhas. Pelos novos tempos, companheiros. Pelos novos tempos.
Desde que acordei água, café, água de novo, cerveja, café, chá. Aguardo pacientemente que o líquido desmanche algo. Algo que consolida o peito e faz com que os braços fiquem rígidos em situações das mais variadas. Meu esforço em impedir que meu olhar se perca é tamanho, que me esqueço dos braços. E eles ficam lá, sem saber o que fazer, apoiados sobre a mesa, cruzados, soltos, não acham lugar. Meus braços deram pra sobrar nos almoços. E jantares. E bares. Deram de não se encaixar mais.
As mãos não. As mãos também sentem, mas, ao menos, elas têm uma a outra. Quando percebo, lá estão as duas, juntas, em uma tentativa insana de esquentar-se. Tento dizer o que me ensinaram... mãos frias e o coração lá. Elas duvidam do que eu conto, ignoram meus conselhos, e continuam no vai-e-vem particular. Sou excluída sem dó.
Minha boca deu de absorver a preguiça das tardes de terça-feira. E agora é uma preguiça só, cala para não ter de continuar além da terceira frase.
Os olhos não olham mais, a digestão tirou licença. Meu corpo, assim, sem mais, deu de ficar rebelde. Simplesmente não encaixa. Não há santo que o obrigue a atender minhas ordens.
É greve, ouvi dizerem por aí. É greve, Natane.
De tanto negar o que há dentro do peito, meu corpo, numa atitude um tanto política demais, pediu Diretas Já. Agora quer votar pelo futuro.
Sem saber o que fazer, eu, rendida, retiro a razão do trono e democratizo minhas escolhas. Pelos novos tempos, companheiros. Pelos novos tempos.
domingo, 26 de setembro de 2010
Inferno
* Tati Bernardi
Começou quando comi o terceiro sonho de valsa e eu nem estava com fome. Mais tarde, na segunda colherada de sopa, eu já queria vomitar, mas estava morta de fome. Conheço de longe, ou tão de perto, a tensão sexual: é a fome matadora que enjoa. É estar inflada demais pra se saciar, mas de um tamanho desproporcional para ficar saciada. Não faz sentido e é bem bobo de querer fazer. É vontade de mastigar algo, mas uma mão sai de dentro do estômago, passa pela boca e quer estapear o mundo. É desejo de porcaria e necessidade de vitamina. É preciso triturar, mas só passa líquido, quando passa. É a esquizofrenia da gana.
Dai decidi que agora não. Ah, agora não. Tudo de novo? Não. Então peguei meu celular, assim, meio ocupada, óculos e tal e mordendo o lábio inferior um pouco ressecado e, sem dó, deletei seu número de celular. Deletei as mensagens de texto também. E deletei seu nome e as fotos e a música e tudo.
E deletei você de tudo que me informa da sua vida e do lugar mais difícil de todos: do lixo do computador. Foi quando piorei. Vi seu carro parado na rua de trás e quebrei inteiro. Vi sua casa e ateei fogo. E vi você andando na rua e te atropelei. E nada adiantou. Porque você é antes de agora. Então voltei no mundo e deletei seu começo. E deletei o mundo. E deletei a explosão cósmica.
E nada adiantou, nada, porque desejo se forma em um lugar que é de onde somos também. Então eu teria que me deletar. E não adiantaria de agora, tipo: “não existo! Valendo!”. Teria que ser de antes. Mas complicou demais. E é por isso que escrevo isso da sua sala iluminada pelo sol mais feliz de todos que é o sol do dia seguinte quando ainda estamos no dia anterior. A vida que ultrapassa a gente só porque esses pequenos momentos de amor nos congelam dando uma falsa sensação de que pode ser bom pra sempre. Enquanto você dorme com uma camiseta cheirosa e é, posso dizer com certeza, a pessoa mais bonita que eu já vi numa cama desarrumada. Poucas coisas são tão claras como isso que percebo agora: você é tão bonito que eu tenho esse riso congelado mesmo quando está insuportável fazer xixi baixinho porque a droga do seu banheiro é colado com a cama sem ter uma mísera parede. Odeio as casas modernas e os casais modernos e o sexo moderno e ser moderna. Eu quero parar com essa vidinha e ter um amor pra vida. Mas e mas e mas e mas. Você é tão bonito que renova a mesmice do cinismo amoroso. Por você vale qualquer sombra na alma.
E é isso. Agora é suspirar feito besta, meus celulares e e-mails e o ar voltam a ser objetos de tortura, sempre a espera da próxima vez que você vai me pedir que morda o violão pra escutar a música dentro do cérebro. E você desafinando e meu cérebro consertando tudo dentro da minha imaginação. Não é amor porque amor é mais do que essa escravidão estética. Não é paixão porque eu só me apaixono por quem eu quero destruir e eu só quero limpar com uma palhinha de ouro seu corpo num pedestal. Não é só tesão, porque eu passaria o resto da minha existência fazendo carinho nos cachos do seu cabelo e você com 18 metros de altura parecendo um menino. Não é nada dessas coisas todas que a gente separa numa caixinha da mente pra continuar arrumando o resto das gavetas da vida. Então o quê? É isso, o xixi baixinho olhando a pessoa mais bonita que já vi numa cama desarrumada. É encantamento puro com um pouco de dor porque até a falta de dor tem muito de dor. E mais o sol e mais as formigas e mais a camiseta cheirosa e o xixi baixinho. É só o inferno.
Começou quando comi o terceiro sonho de valsa e eu nem estava com fome. Mais tarde, na segunda colherada de sopa, eu já queria vomitar, mas estava morta de fome. Conheço de longe, ou tão de perto, a tensão sexual: é a fome matadora que enjoa. É estar inflada demais pra se saciar, mas de um tamanho desproporcional para ficar saciada. Não faz sentido e é bem bobo de querer fazer. É vontade de mastigar algo, mas uma mão sai de dentro do estômago, passa pela boca e quer estapear o mundo. É desejo de porcaria e necessidade de vitamina. É preciso triturar, mas só passa líquido, quando passa. É a esquizofrenia da gana.
Dai decidi que agora não. Ah, agora não. Tudo de novo? Não. Então peguei meu celular, assim, meio ocupada, óculos e tal e mordendo o lábio inferior um pouco ressecado e, sem dó, deletei seu número de celular. Deletei as mensagens de texto também. E deletei seu nome e as fotos e a música e tudo.
E deletei você de tudo que me informa da sua vida e do lugar mais difícil de todos: do lixo do computador. Foi quando piorei. Vi seu carro parado na rua de trás e quebrei inteiro. Vi sua casa e ateei fogo. E vi você andando na rua e te atropelei. E nada adiantou. Porque você é antes de agora. Então voltei no mundo e deletei seu começo. E deletei o mundo. E deletei a explosão cósmica.
E nada adiantou, nada, porque desejo se forma em um lugar que é de onde somos também. Então eu teria que me deletar. E não adiantaria de agora, tipo: “não existo! Valendo!”. Teria que ser de antes. Mas complicou demais. E é por isso que escrevo isso da sua sala iluminada pelo sol mais feliz de todos que é o sol do dia seguinte quando ainda estamos no dia anterior. A vida que ultrapassa a gente só porque esses pequenos momentos de amor nos congelam dando uma falsa sensação de que pode ser bom pra sempre. Enquanto você dorme com uma camiseta cheirosa e é, posso dizer com certeza, a pessoa mais bonita que eu já vi numa cama desarrumada. Poucas coisas são tão claras como isso que percebo agora: você é tão bonito que eu tenho esse riso congelado mesmo quando está insuportável fazer xixi baixinho porque a droga do seu banheiro é colado com a cama sem ter uma mísera parede. Odeio as casas modernas e os casais modernos e o sexo moderno e ser moderna. Eu quero parar com essa vidinha e ter um amor pra vida. Mas e mas e mas e mas. Você é tão bonito que renova a mesmice do cinismo amoroso. Por você vale qualquer sombra na alma.
E é isso. Agora é suspirar feito besta, meus celulares e e-mails e o ar voltam a ser objetos de tortura, sempre a espera da próxima vez que você vai me pedir que morda o violão pra escutar a música dentro do cérebro. E você desafinando e meu cérebro consertando tudo dentro da minha imaginação. Não é amor porque amor é mais do que essa escravidão estética. Não é paixão porque eu só me apaixono por quem eu quero destruir e eu só quero limpar com uma palhinha de ouro seu corpo num pedestal. Não é só tesão, porque eu passaria o resto da minha existência fazendo carinho nos cachos do seu cabelo e você com 18 metros de altura parecendo um menino. Não é nada dessas coisas todas que a gente separa numa caixinha da mente pra continuar arrumando o resto das gavetas da vida. Então o quê? É isso, o xixi baixinho olhando a pessoa mais bonita que já vi numa cama desarrumada. É encantamento puro com um pouco de dor porque até a falta de dor tem muito de dor. E mais o sol e mais as formigas e mais a camiseta cheirosa e o xixi baixinho. É só o inferno.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Rotina de guarda-roupa
Já fiz isso antes. Mas é incrível como os passos pesam mais ao longo dos anos. O presente parece mais pesado agora. Antes, o desagradável martelava. Hoje, é bola de ferro nos pés. Ele te afunda na cama.
Não vivo mais a liberdade inconsequente de outrora. Mas, ai, como queria vivê-la novamente!
Aquela liberdade desesperada, aquele gesto obsceno para o passado. Saía de cabeça erguida, história na mão. O peito pulando em alegria sufocante.
Hoje visto-me com uma responsabilidade meio oca. É quase uma fantasia. Uma fantasia para uma festa que não quero estar.
Observo e o que vejo são fantasiados, máscaras e bebidas controladas. Vendidas a um alto preço.
(...)
Tirem-me desta festa, por favor. Eu quero cara limpa, open bar, guaraná na mesa.
(Vou costurar roupas novas.)
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