quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Chapter 4

A cabeça pesa. A mente pesa. O corpo pesa. À parte do mundo, ela sentia-se um pouco mais afastada. Uma exclusão quase que natural. Os olhos passavam pelas cenas à sua frente, retratos seqüenciais, conseqüência de um comportamento avesso aos ditados padrões. Há meses ela tentava adequar-se. Fazer parte de algo que teimava em deixá-la para fora. Teimava em levá-la para mais longe da realidade presente, cenas de uma rotina construída à força. Será isso inteligência? Forçar-se, uma masturbação mental sem precedentes. Isso a confundia, mas ampliava seu entendimento e, por mais que fosse dolorido, a deixava como observadora de situações para nenhum antropólogo achar defeito. Ela percebia-se diferente, analisava seus próprios comportamentos, ditava novas regras para suas relações, obtinha novas saudades. Adquiria novos gostos. Tudo a um preço caro: as horas sempre pareciam compridas demais. Mas, centos de dias depois, ela percebia, orgulhosa, seu avanço. Novas idéias, ideais, ideologicamente construídos para não admitirem condenações. Tudo montado com cuidado, milimetricamente pensado. Ela sabia que sofreria ainda mais, que o sofrimento nascia do sem-fim ato de tentar adequar-se. Adequar-se a cada realidade, uniões de fracos que, para evitar o redemoinho social, amontoam-se uns sobre os outros e expelem aquele que não colabora para uma unidade acéfala.
O que exatamente causa a sensação de distanciamento? Os outros ou o íntimo, que insiste em focar os olhos para baixo, alheio ao que acontecesse ao redor? Ela continuava com as teclas do computador sob os dedos e tudo parecia distante demais. Criou um universo paralelo e lá ficava, segundos confortáveis. Extremamente confortáveis. Lá, as dúvidas não a levavam frente à parede, mas ajudavam-na a criar. Desconexões logo pareciam claras demais. Os pensamentos na tela encaixavam-se e transformavam delírios em contos primários. Hoje ela sentia falta de cores.


(Meu humor é de oscilar. Quem me conhece, sabe. A angústia dá o ímpeto, mas 'cada um sabe das dores e delícias de ser quem se é')

3 comentários:

Lorenzo Tozzi disse...

mas, se a adequação aos "ditados padrões" é uma força centrífuga que não a deixava "fazer parte de algo", não teria sido melhor a ela buscar seguir adiante com sua própria noção de pudor, já que, se ela faz mal aos padrões, estes causam o mesmo dano nela?

*:

Maurício disse...

belo texto!

vakagoloka disse...

gostei.