sexta-feira, 7 de março de 2008

O último cinema

Natane Tamasauskas
Do Diário do Grande ABC

O cenário é desolador: à esquerda da entrada, portas e janelas de madeira maciça, ricas em detalhes, parte de dias que ficaram no passado. À frente, antigas máquinas de pipoca, caixas, entulho e sujeira, muita sujeira. Alguns passos e chega-se à sala de espera.
Poltronas antigas ainda estão presas às paredes descascadas. No salão, espaço para 2.171 lugares, dezenas de luminárias e marcas de uma tela assustadoramente grande.
O que era glamour tornar-se, pouco a pouco, literalmente, pó. Desde a semana passada, o prédio em que funcionava o antigo Cine Colonial, em São Caetano, é demolido por uma construtora. No local, serão construídos dois prédios de apartamentos. “É o ritmo do progresso”, lamenta Valter Lorenzini, um dos herdeiros do antigo cinema, o último do Grande ABC a conservar as características originais desde sua fundação.
Construído em 1951, o, até então, Cine Primax funcionou até meados dos anos 1970, quando sofreu um incêndio criminoso. Depois de alguns anos fechado, reabriu sob o nome de Colonial. “Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Foi aqui que trouxe minha primeira namorada”, conta o comerciante aposentado Edmar Zamboni Ortega, de 66 anos. “Naquela época não tínhamos o que fazer. Era isso ou parque de diversão”, lembra. “Em alguns filmes, a fila da bilheteria dava a volta no quarteirão”.
Após encerrar suas atividades em 1986, permaneceu vazio até ser alugado por uma igreja evangélica. Em 2005, por três meses, abrigou também uma pista de kart.
Há dois meses, um segurança foi colocado na entrada da construção para evitar que moradores de rua invadissem o prédio, o que já era comum. Responsável pela atividade, Márcio Roberto do Nascimento revela que chegou a ver vizinhos do edifício aos prantos. “Até eu fiquei sentido. Ouvi histórias maravilhosas. As pessoas estão muito tristes”, diz.

PROJETO
Cinéfilo ‘desde que se conhece por gente’, o fotógrafo e pesquisador Atílio Santarelli conta que levou o projeto de restauração do Cine Colonial ao prefeito José Auricchio Júnior (PTB). “Chamei técnicos, arquitetos, restauradores e fizemos um estudo de como poderíamos reabrir o cinema. Deixei tudo na Prefeitura há uns dois anos”, afirma. “Com a demolição, perdemos uma parte da identidade, da história do município”.
Vendida a uma empresa há dois meses por cerca de R$ 3,5 milhões, o edifício pertencia à família dos Lorenzini desde o início. Segundo o herdeiro Valter, existiam pessoas na família que não queriam o negócio. “Eu mesmo cheguei a levar a assessores do prefeito a intenção da venda do imóvel. Não sei se isso não chegou, mas a Prefeitura nunca nos procurou”, explica. “A família cresceu muito e não queria mais fazer negócio junto. Aí tivemos de vender”.
O Diário procurou o prefeito Auricchio. A assessoria de imprensa afirma que um pré-projeto realmente foi apresentado, mas que, há cerca de um ano, passava por um processo de levantamento jurídico para uma possível desapropriação do local. Ainda segundo a assessoria, a Prefeitura está surpresa com a demolição e, nos próximos dias, tentará reverter a situação. Representantes da Imolev Empreendimentos não foram localizados para comentar o caso. De acordo com alguns operários, os tratores derrubarão toda estrutura do antigo cinema dentro de 15 dias.

(foto: Tiago Silva)

http://cultura.dgabc.com.br/materia.asp?materia=632943

4 comentários:

Peri disse...

Parabéns pelo tocante relato. Uma pena que os burocratas não acreditem na magia do Cinema. Mèlies deve se revirar no tumulo a cada tela derrubada.

PS Vc tá efetiva no Dgabc??

Carol Ribeiro disse...

Não restam muitos. Vovó conta que a família tinha lugar cativo alugado no cinema.
Estrutura de cinema agora só em shopping.

Cinema Paradiso.

Mariana disse...

Tenho blog tumbém !Vê lá.
Já tentei escrever aqui 5 vezes e não consegui postar, o blog num deixa.Estão querendo me sabotar.

http://ventodemaio.wordpress.com


Bjo

Danilo Prates disse...

mas veja as vantagens: um prédio novinho, com home-center, home-fitness, home-care, home-office, home-water (piscina), home-car-park e, por fim, home-home! demais!!!