quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Gmail é vida

Parecia um dia comum. O sol brilhava num céu azul. Parecia um dia comum e todos foram trabalhar. Ninguém tinha parado para pensar em como era trabalhar sem gmail. Até porque não existia trabalhar sem gmail. Até porque nada existia sem gmail. Até aquela manhã.

A primeira a chegar foi ela, com seus sapatos verdes. Sentou apressada, ligou a torre e sozinha na redação, digitou rápido a senha da internet. Num gesto maquinal digitou o primeiro site das manhãs: dábliudábliudábliupontogímeilpontocom. Nada. Fez a mesma coisa três ou quatro vezes. Checou a conexão. Nada. Olhou para os lados: ninguém. Ligou quase desesperada para o irmão que lhe diria se era um problema no site ou na empresa. O irmão não atendeu. Sentiu-se em um isolamento estranho pensou que Deus havia bloqueado a comunicação mundial e se desesperou.

Mas foram chegando os outros. No mesmo gesto rotineiro, tentaram entrar no site. Olharam atônitos a bandeirinha do Windows tremular. Nada. Se entreolharam e perguntaram quase num coro: o que está acontecendo com o gmail pelo amor de Deus. Ninguém disse nada, mas passou pela cabeça de todos o pesadelo dos sites bloqueados, mordaça para qualquer jornalista.

E agora? Surgiram possibilidades, suposições, ligações externas. A esperança do problema ser do Google. Só depois do almoço é que veio a confirmação: "Lá fora o gmail está normal", anunciou algum. E agora? Como vai ser? Bloquearam mesmo. Os ramais anunciavam a novidade aqui e ali. "Foi ordem da diretoria", "Disseram que a gente não trabalha". Suspiros e mais suspiros.

A gente não sabia, nem eu, nem a menina de brinco roxo, nem a garota dos sapatos verdes. A gente não sabia que aquelas janelas azuis que de súbito se tornam laranja nos aproximam do mundo. E nos fazem sorrir. Depois de algumas horas chega a notícia da liberação. Abaixo o AI-5. O gmail está de volta. E o mundo também. Ao alcance de um clique nessa virtualidade que é ser nós.

* Autoria da menina do casaco dourado (ou ainda, menina das costas em chamas).

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Capital - ismo.

E quando você pensa que a podridão já está demasiadamente mal-cheirosa, algo ainda maior aparece diante de seus olhos.
O chamado “mundo corporativo” é desprezível. Como todos caminham pelas ruas, sorrisos abertos, enquanto sugam cada minuto de ínfima hora de almoço?
Como pode alguém sorrir sabendo que trocará a brisa suave pelos quadrados brancos, máquinas pensantes, cérebros retrógrados?
Tal discurso não é novidade para ninguém.
Mas hoje tive vontade de gritar. De gritar explicar a cada ouvido atento o quanto essa merda toda desumaniza, o quanto a rotina atrofia a imaginação, a cor da existência.
Hoje tive vontade de gritar. Explicar onde está o futuro, por onde caminham as soluções para dias mais reais, menos mecânicos.
Deixei-me sugar pelo sistema. Arrependo-me não pelo fato, inevitável, mas por não ter resistido, pela não-ação enquanto a lama me sufocava.

Hoje tive vontade de gritar, mas engoli a saliva amarga.
Por enquanto.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Nasci para tudo.
Estou aqui para tudo, para a dança cósmica das mudanças, das transformações.

Eu sou muito boa para a vida.
Por isso faço dela um suporte para uma existência insinuante.

Só deixo minha alma na mão de quem ama solto. Real.

sábado, 3 de novembro de 2007

Ego City

Olhei mais uma vez para o espelho. A idéia acendeu como nos filmes que assistia quando criança. E não, não foi a lâmpada queimada que renasceu. Idéias começaram a sobrevoar o mesmo ar que meu corpo físico tanto necessita. Rodaram, voaram e povoaram minutos que pareceram horas. De repente, pensamentos soltos foram conectados em uma mesma idéia. Nada muito brilhante, mas, para uma mente mediana como a minha, incrivelmente excitante.
Tentei calcular o número de vezes que parei frente a um espelho durante as últimas horas. Tentei recordar o número de pontos que rejeitei em um reflexo. Incontáveis pontos. E imaginei-me como um objeto. Um objeto com o mesmo peso, o mesmo formato, a cada dia igual. Apenas envelhecendo em um canto qualquer, até ser desprezado em um depósito de lixo, ser lambido por chamas ou corroído pelo tempo. Destino aceitável para quem obteve tanta paz do universo. Apenas cumpriu seu papel. Em paz.

O mundo é movido pelo ego. De nada serve a física. Cada passo possui um único objetivo: o ego.