segunda-feira, 28 de julho de 2008

Deus me livre de ser normal

Se
Hermógenes

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...
Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...
Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,
E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...
Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...
Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...
Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...
Se, ainda incapaz para a beatitude das almas santas,
Precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...
Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...
Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...
Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...
Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.

Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.




Nua, livre de preconceitos, sigo o caminho de uma nova existência.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Um novo rubor

Tudo parecia tão enegrecido, mas a pequena sobrevivia. Os dias carregavam-na.
Hora após hora, a pequena planejava os minutos seguintes na ânsia de que estes, enfim, saíssem como o planejado. E seu plano era deixar o negrume para trás, voltar a andar sobre cores.
A existência caminhava como algo arrastado, mas a esperança estava ali: a pequena recusava-se a perdê-la. Abominava a idéia de render-se ao acaso.
E, de tanto imaginar, os céus trouxeram o rompimento. Assim, sem muito aviso. Ela pedira, mas, diante do inevitável, da violência, ela parecia não acreditar.
A pequena chorou, chorou dias a fio. Chorou tanto que as lágrimas marcaram as bochechas antes rosadas, ainda que rosadas de um falso rubor.
E lá permaneceu a pensar, marcada. Pensou, repensou, imaginou, quis compreender. Seus passos sempre tão firmes, de repente, soaram inúteis. Trejeitos, manias e atitudes já não pertenciam mais àquele corpo.
Tempo.
Uma longa ciranda de ponteiros mais tarde, a pequena finalmente viu, diante de seus olhos já recuperados de tanta tristeza, as primeiras cores. Cores sob uma névoa, mas, ainda sim, as primeiras cores. Não eram as cores de outrora, mas novos matizes, tons nunca alcançados, tons de cenas ainda no papel.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Don't worry

Devido aos últimos acontecimentos, decidi elevar uma canção à meta. Clichê ou não, é isso. Alguns entenderão, outros não. Mas não importa. Julgamentos não mais me interessam.

E como já dizia alguém que acompanhou minha infância, 'por hoje é só, pessoal'.

Don't Worry, Be Happy
Bobby McFerrin

Here's a little song I wrote
You might want to sing it note for note
Don't worry, be happy
In every life we have some trouble
But when you worry you make it double
Don't worry, be happy
Don't worry, be happy now
Oo, ooo...
Don't worry, be happy
Oo, ooo...
Ain't got no place to lay your head
Somebody came and took your bed
Don't worry, be happy
The land-lord say your rent is late
He may have to litigate
Don't worry, be happy
Look at me, I'm happy
Don't worry........ be happy
let me give you my phone number
when you worry, call me I will make you happy
Don't worry...... be happy
Ain't got no cash, ain't got no style
Ain't got no girl to make you smile
Don't worry, be happy
'Cause when you worry your face will frown
And that will bring everybody down
So don't worry, be happy
Don't worry, be happy now
Oo, ooo...
Don't worry, be happy
Oo, ooo...
Don't worry, don't worry, don't do it, be happy
Let the smile on your face
Don't bring everybody down like this
Don't worry, people will soon pass
what ever it is
Don't worry, be happy
I am not worried, "I am happy"



PS: O conceito de 'seja feliz' fica por conta de cada um.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Àquele ato... ato 2

O primeiro sinal foi o formigamento nos dedos. Agora eram as mãos. Formigavam, não deixavam-na dormir, quieta, em paz. Numa paz merecida de cidadã cumpridora de regras, obrigações, sorrisos e gentilezas. A poesia borbulhava sob sua pela alva, tão alva, que de ver o sol, assustava-se e corava.
Depois daquele dia, tudo parecia diferente. E de fato fora. Um segundo desatento e meses de segundos não programados. Era aquilo ou nada e nada não era de seu feitio.
Preferiu refugiar-se em cenas de vidas alheias, pinceladas, um universo onde tudo era tão dramático!
Assim como sua vida. Do instante mais terreno, ela transformava-o em cena fingida. Fingia uma importância, fingia palavras, fingia sentimentos, saudades, rimas, cores, sabores. Afinal, o que era a existência senão um conjunto de cenas criadas, recriadas e coordenadas por nossa própria vontade? O que era senão as conseqüências de decisões instantâneas, mas, ainda sim, nossas decisões?
Aquele dia, ela mal pode dormir. O formigamento no pé, nos dedos da mão, a cabeça e estômago doloridos. A espera por um amanhã criado, recriado, replanejado. Planejado tantas vezes... algo a sufocava e ela tentava descobrir o início de um novelo de fios tão distintos! Impossível, pensou. Impossível saber quando nasceu o primeiro ímpeto da primeira idéia do primeiro fio daquele novelo tão distinto.
Impossível era prever ou desfazer o nó. Tarde demais. Já era tarde.