domingo, 26 de agosto de 2007

Penetra surdamente no reino das palavras.

Ouvir tal convite no final de uma tarde quente foi como receber um copo d'água. Entrei, tímida e solitária, naquela sala sem saber que seria meu melhor momento do dia.
Foram vinte minutos mágicos. Minutos que brotaram lágrimas do canto dos meus olhos sonolentos. Sentimental demais, demais.

Hoje, Museu da Língua Portuguesa.


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

(João Cabral de Melo Neto)


Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um dencanso na loucura.
(Guimarães Rosa)


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Vinícius de Moraes)


Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.
(Gregório de Matos)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ao meu amor

Quero acalmar em um silêncio.
Deite aqui perto de mim.
Sou mil, mas com você não quero ser coisa alguma. Quero ser o que tua respiração permita que eu seja.
Aqui dentro só sobram imagens. Imagens do teu sorriso, do olhar doce.
Quero percorrer teus extremos com a ponta dos dedos.
Quero acalmar teu cansaço no meu peito aberto.
Um peito que agora parece tão vazio. Vazio de mim, de você. Vazio do que outrora fez nascer a vida.

O fim é a morte prematura do que deixava meu céu mais azul.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Vamos varrer juntos?


Tanto tempo depois, lembro dos motivos que fizeram-me começar a publicar textos aqui.
Hoje, falta sentido. Alguns meses depois, tantos fatos depois, tantas pessoas, cenas. Tantos beijos, brigas. Tanto sexo, tantas refeições (sim, comida e sexo devem sempre vir juntas). Tanto depois. Tanto.

Tenho a súbita impressão que devo mudar. O lado que gosto, devo mudar. O lado que mudou, devo gostar. Devo gostar de mudar e mudar ao meu gosto. Ou mudar ao gosto do outro. Ou ainda gostar que os outros me mudem. Gostar que o meio me mude. Deixar que o meio me mude. Gosto, mas não sei se devo gostar.
Ah.

Idas e vindas. Voltas e revoltas, retornos. Vai-e-vem. A alma pede para mudar, mudar e mudar. As coisas andam confusas. Para variar, nada. Inquieta, sempre inquieta.